Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2026

Home Saúde Nem azeite, nem peixe: estudo inédito desvenda o segredo dos supercentenários

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Nem peixe, nem vinho, azeite ou tampouco iogurte. A receita para viver 100 anos ou até mais e com qualidade está na diversidade. Não a de ingredientes culinários, mas de genes. Um artigo publicado na revista Genomic Psychiatry afirma que o Brasil guarda o grande tesouro do mundo para desvendar e democratizar os segredos da longevidade humana extrema.

Cientistas dizem que esse baú de pedras preciosas de DNA guardado no genoma dos supercentenários brasileiros pode levar a ciência a ajudar quem não nasceu aquinhoado pela genética a viver mais e melhor, inspirando o desenvolvimento de drogas que supram aquilo que a natureza não concedeu.

Em seu artigo, Mayana Zatz e colegas do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP) analisam por que o Brasil tem um dos recursos mais valiosos para compreender a longevidade humana extrema. Eles se basearam em suas pesquisas e nos avanços recentes na biologia de supercentenários feitas por outros grupos.

A longevidade tem a paleta dos tons que nos fazem humanos. São zonas multicoloridas. O Brasil oferece algo que nenhum outro país possui, enfatiza o artigo. Desde a colonização portuguesa em 1500, passando pela migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados e pelas ondas de imigração europeia e japonesa, o país desenvolveu o que os autores descrevem como “a maior diversidade genética do mundo”.

Com cerca de 37 mil centenários, segundo o IBGE, o Brasil pode se orgulhar de desempenho olímpico na modalidade vida longa. Estudos do próprio grupo de Zatz e também de outros equipes estimaram que aproximadamente 70% da população brasileira apresenta miscigenação.

Os números citados no artigo impressionam. Três dos 10 supercentenários do sexo masculino validados (que têm comprovadamente a idade que alegam) mais longevos do mundo são brasileiros – incluindo o homem mais velho vivo, nascido em 5 de outubro de 1912.

Esse fato é particularmente significativo, já que a longevidade extrema masculina é muito mais rara que a feminina, em razão de maior predisposição a doenças crônicas, risco cardiovascular e diferenças hormonais e imunológicas.

Entre as mulheres, o Brasil também se sobressai: supercentenárias brasileiras estão entre as 15 mais longevas do mundo, à frente até de países mais populosos e desenvolvidos, como os Estados Unidos, de acordo com a LongeviQuest, empresa especializada em checagem de dados de centenários.

O mais curioso é que a idade secular e o fato de serem miscigenados são os únicos pontos em comum entre eles, que vem de todas as regiões e extratos sociais do país.

Muitos dos chamados genes de interesse para a fonte da vida longa são ligados ao sistema imunológico. Isto é, à resistência a doenças. Outros estão associados à capacidade cognitiva e muscular. O que implica romper a barreira dos 100 anos dono de seu destino.

O estudo abarca mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários validados (totalmente documentados), vindos de várias regiões do Brasil, com origens sociais, culturais e ambientais heterogêneas.

Foram descobertas pelo menos 163 variantes genéticas de interesse. O diferencial é que não apenas as identificaram, mas fizeram testes de função celular para comprovar sua hipótese. A geneticista observa que isso é só o início, pois há um número muito maior de variantes genéticas associadas à longevidade.

O objetivo vai além de validar achados estrangeiros. A meta é encontrar variantes protetoras específicas do genoma brasileiro, com potencial de aplicação na medicina de precisão. Em parceria com Ana Maria Caetano de Faria (UFMG), os pesquisadores também investigam o perfil imunológico dos supercentenários.

Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do artigo, diz que a maioria dos bancos genômicos carece de representatividade de populações miscigenadas, criando “pontos cegos” que podem omitir mecanismos protetores que os pesquisadores procuram.

Um primeiro estudo genômico com mais de mil brasileiros acima de 60 anos descobriu 2 milhões de variantes genéticas novas. Entre idosos brasileiros, foram identificadas mais de 2.000 inserções de elementos móveis e mais de 140 alelos HLA não descritos em bancos genômicos internacionais.

Elementos móveis são pedacinhos de DNA que conseguem “se mover” dentro do próprio genoma. Se o genoma fosse um livro com bilhões de letras; esses elementos seriam frases que se copiam e se colam em outras partes do texto.

Essas 2.000 inserções novas no DNA de idosos brasileiros podem influenciar o funcionamento de genes – às vezes protegendo da doença, às vezes alterando o envelhecimento.

Já alelos HLA são variações de genes que controlam o sistema imunológico e ajudam o corpo a identificar vírus, bactérias e células estranhas.

Encontrar 140 alelos HLA que não existem em bancos genéticos internacionais significa que os brasileiros têm uma diversidade imunológica maior do que se conhecia até então. Essa diversidade pode explicar por que algumas pessoas desenvolvem defesas mais fortes contra infecções, ou talvez até envelheçam melhor, resistindo mais a doenças. (Com informações do jornal O Globo)

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