Domingo, 19 de Abril de 2026

Home Amilcar Macedo Nem santos, nem cínicos: a construção de uma sociedade razoavelmente justa

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Em 1714, Bernard Mandeville publicou um pequeno poema satírico que acabaria provocando desconforto duradouro na filosofia política europeia: A Fábula das Abelhas. A narrativa descreve uma colmeia rica, ativa e aparentemente bem organizada. Há abundância, o comércio prospera, surgem inúmeras profissões e a vida coletiva parece cheia de energia.

No entanto, essa prosperidade se apoia em um elemento incômodo: cada abelha age movida por interesses próprios, vaidade, ambição e desejo de reconhecimento. Advogados dependem dos conflitos, médicos não deixam de viver das doenças, comerciantes perseguem o lucro, governantes cuidam da própria reputação. Em termos simples, aquilo que se convencionou chamar de vícios privados acaba contribuindo para a riqueza pública.

Em determinado momento, porém, as abelhas passam a se incomodar com essa contradição. Percebem a distância entre o discurso moral que proclamam e o modo como efetivamente vivem. Decidem então desejar honestidade absoluta. Pedem aos deuses que todos se tornem plenamente virtuosos. O pedido é atendido. A partir daí, a fraude desaparece, a corrupção é extinta, o luxo perde sentido, o consumo diminui, a competição enfraquece e a engrenagem econômica perde força.

O resultado é paradoxal: a colmeia empobrece, muitas atividades deixam de existir e a antiga prosperidade dá lugar a uma vida simples, correta do ponto de vista moral, mas limitada sob o aspecto material. A ironia de Mandeville é conhecida: uma sociedade inteiramente virtuosa talvez não seja uma sociedade próspera, enquanto a prosperidade parece depender, ao menos em parte, de imperfeições bastante humanas.

Seria um erro ler a fábula como elogio da corrupção ou do egoísmo desmedido. O argumento de Mandeville é mais incômodo e, justamente por isso, mais interessante. Ele chama atenção para um dado da experiência social: sociedades reais não são formadas por indivíduos moralmente perfeitos, mas por pessoas concretas, com interesses, expectativas, ambições e limites (talvez aqui esteja o problema). A vida coletiva se organiza por meio de instituições que, muitas vezes, conseguem transformar motivações individuais em resultados que beneficiam o conjunto.

A ambição pode gerar inovação; o desejo de reconhecimento pode estimular o esforço; a busca por conforto pode impulsionar avanços técnicos. Nem sempre existe coincidência direta entre virtude individual e benefício público.
A ideia de uma sociedade apenas relativamente justa surge desse tipo de constatação. A justiça perfeita pertence mais ao plano das aspirações do que ao da história. As sociedades concretas vivem em permanente tensão entre valores e interesses, entre aquilo que se considera ideal e aquilo que efetivamente ocorre na prática.

O pensamento político posterior procurou enfrentar esse desconforto. Adam Smith observou que o interesse próprio pode ser moderado por sentimentos morais, como empatia, reconhecimento e desejo de aprovação social. John Rawls parte de uma constatação simples: as pessoas têm projetos próprios, ambições e planos de vida distintos, e isso não é um defeito da sociedade, mas parte da própria condição humana. O papel das instituições não é exigir virtude heroica, e sim garantir que essas diferenças não produzam desigualdades intoleráveis.

Uma sociedade razoavelmente justa não depende de transformar indivíduos em exemplos morais permanentes, mas de criar regras capazes de preservar um mínimo de equilíbrio, mesmo quando cada um busca melhorar a própria vida.

Assim, uma sociedade razoavelmente justa não tenta eliminar o interesse pessoal, algo que nunca ocorreu em lugar algum. O que se procura é impedir que esse interesse se transforme em instrumento de dominação ou privilégio arbitrário. O problema não está no fato de cada pessoa desejar viver melhor, mas na ausência de limites que protejam aquilo que pertence a todos. O direito, a política e as instituições existem (ou deveriam existir) precisamente para evitar que a busca individual por vantagens comprometa a convivência comum.

A atualidade da fábula permanece evidente porque ela nos lembra de algo simples, embora frequentemente ignorado: não basta invocar ideais abstratos de virtude para resolver o problema da justiça. É necessário compreender como as pessoas realmente agem, quais incentivos encontram e quais consequências decorrem das escolhas institucionais. O desafio consiste em evitar tanto o moralismo ingênuo quanto o cinismo conformista.

Talvez a principal lição da colmeia seja esta: a justiça possível não nasce da pureza absoluta, mas do esforço constante de equilibrar interesses, corrigir distorções e criar condições para que a liberdade individual não destrua a vida em comum. Entre a colmeia corrompida pelo excesso de vícios e a colmeia empobrecida pela virtude integral, permanece o espaço difícil, imperfeito e sempre em construção de uma sociedade que busca ser, ao menos, suficientemente justa.

Amilcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br

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