Sábado, 24 de Fevereiro de 2024

Home Brasil Neste Dia dos Pais, separações e reencontros marcam refugiados no Brasil

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“Não quero que ele gaste o pouco dinheiro que tem comprando qualquer coisa para mim. Presente, não quero. Eu sou feliz só de ele estar aqui”, se emociona o venezuelano Aldrix Llovera, de 49 anos. Vivendo desde 2020 no Brasil, ele terá finalmente a companhia de um filho para celebrar o Dia dos Pais neste domingo (14). Alexis, de 29 anos, chegou no final do ano passado. Veio para ficar e já deu os primeiros passos para seguir a profissão do pai, que trabalha como eletricista.

“Eu aguardei ele na rodoviária de Manaus. Sabia que ele não tinha roupa, não tinha nada. Eu levei uma roupa, sapato. Ele tomou banho na rodoviária, trocou a roupa e fomos para casa”, contou Aldrix. O venezuelano, no entanto, convive com a saudade de outros quatro filhos. Como outros refugiados que deixaram seus países em busca de uma nova vida, ele carrega uma trajetória marcada pela separação dos entes queridos, às vezes por curto tempo, às vezes por longos períodos.

Mesmo sem esperar grandes comemorações para este ano, Aldrix lembra com satisfação do Dia dos Pais na Venezuela: “churrasco, cerveja, foguete, quase igual ao que é aqui”. Em busca de melhores condições de vida, ele deixou Valência, cidade onde morava no norte do país vizinho. Atravessou sozinho a fronteira, chegando a Pacaraima (RR). De lá, passou por Boa Vista, capital roraimense, e foi parar em Manaus, onde vive atualmente. É um trajeto comum realizado por muitos venezuelanos em meio ao movimento migratório que teve início em 2017. “A situação em meu país estava muito ruim, muito crítica. Já não dava para trabalhar e morar lá”, conta.

Atualmente, ele possui carteira assinada e atua como eletricista em uma empresa de energia. Mas até se estabelecer, viveu na rodoviária da capital do Amazonas, onde funciona um posto de recepção e apoio a imigrantes. Lá, pessoas em situação de vulnerabilidade podem tomar banho, guardar seus pertences e, pernoitar em barracas emprestadas pela Operação Acolhida, iniciativa liderada pelo Ministério da Cidadania que envolve também uma rede de organizações mobilizada pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU).

Apesar de relatar que sofreu uma tentativa de assalto, Aldrix considera ter sido bem recebido e avalia que os brasileiros gostam de ajudar. Com emprego fixo e renda regular, ele pôde viabilizar a vinda de Alexis, que estava na Colômbia, para onde havia ido cinco anos antes com outros dois irmãos. Apesar da distância, nunca deixaram de se falar e quando o filho contou que não conseguia emprego, o pai prontamente se ofereceu para pagar a passagem com destino ao Brasil. Nos últimos meses, Alexis fez curso de eletricista. Enquanto aguarda uma oportunidade na empresa onde o pai trabalha, ele busca se sustentar vendendo banana.

Além da solidariedade brasileira, os dois contam ainda com o apoio de uma comunidade de venezuelanos que trilhou um caminho similar. Aldrix inclusive conheceu no Brasil sua atual esposa, a compatriota Miriam Machado. Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão colegiado vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam que 70,04% dos 61.731 pessoas reconhecidas como refugiadas no Brasil são venezuelanas. Síria, Senegal, Angola e República Democrática do Congo fecham a lista dos cinco principais países de origem dessas pessoas.

Refúgio

Os pedidos de refúgio levam em média 2 a 3 anos para serem analisados. Eles são deferidos caso se reconheça que o deslocamento se deu em consequência de conflitos internos, agressão estrangeira, violência generalizada, grave violação de direitos humanos ou perseguição por motivos sociais, raciais, religiosos, políticos ou de nacionalidade. No caso dos venezuelanos, o grande fluxo migratório iniciado em 2017 decorre da crise econômica e política que se instaurou no país vizinho. No auge desse movimento, cerca de 500 pessoas ingressavam diariamente no Brasil. Criada em 2018 para lidar com a situação, a Operação Acolhida tem assegurado a interiorização de milhares deles em diferentes cidades do país.

Por sua vez, o Acnur oferece suporte a essa população. Voltada para a proteção dos direitos dos refugiados em todo o mundo, a agência se mantém exclusivamente com doações que podem ser feitas pelo site. No Brasil, a atuação ocorre geralmente de forma indireta, financiando organizações sociais e entidades do terceiro setor. A exceção está justamente na fronteira com a Venezuela, onde são mantidos diversos abrigos e são desenvolvidas diretamente ações variadas, que incluem cursos de português, capacitação profissional, encaminhamento de crianças para a escola, concessão de auxílios sociais e financeiros, atendimento psicossocial, entre outras.

Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur no Brasil, observa que a reconstrução de vida longe dos vínculos afetivos é um desafio adicional para os refugiados, muitos dos quais passam anos longe de cônjuge, pais, irmãos e filhos.

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