Domingo, 19 de Abril de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 19 de abril de 2026
O avanço da bancarização da população, com novas instituições financeiras – como fintechs e bancos digitais – entrando no mercado, trouxe uma grande oferta de crédito, o que também contribuiu para o endividamento das famílias, diz a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.
Entre 2016 e 2026, por exemplo, a fatia dos bancos e financeiras na inadimplência foi a que mais cresceu, com alta de 14,4 pontos porcentuais. Em 2016, a participação era de 32,7%, e subiu para 47,1% em fevereiro deste ano, segundo a Serasa. Isso deixou os tomadores de crédito mais sujeitos à alta dos juros.
Também a participação das contas básicas na inadimplência aumentou no mesmo período, porém com menor intensidade comparada à dos bancos e financeiras. A fatia das contas básicas na inadimplência estava em 13,9%, em 2016, e subiu para 21,4% este ano, uma diferença de 7,5 pontos porcentuais.
Depois do boom da oferta de crédito ao consumidor com recursos livres, o ritmo das concessões está desacelerando. No acumulado em 12 meses até janeiro de 2025, a aprovação de novos empréstimos avançava 15,2%, mas em janeiro deste ano cresceu 9,1% na mesma base de comparação, segundo dados do BC.
“As instituições financeiras estão desacelerando o ritmo de concessão, principalmente nas modalidades de juros mais baratos”, observa Camila.
Isso significa que o brasileiro está se endividando nas linhas de financiamento mais caras, como o crédito rotativo do cartão e o cheque especial, por exemplo. Por isso, a perspectiva é de que tão cedo não ocorra queda na inadimplência, prevê a economista.
Em março, 80,4% das famílias tinham dívidas em atraso, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Fabio Bentes, economista-chefe da entidade, diz que essa marca recorde já seria preocupante por conta dos juros elevados. E, no Brasil, quase a metade (48%) dos inadimplentes ganha um salário mínimo.
No entanto, o economista acrescenta outro fator recente que agrava esse cenário e pode turbinar a inadimplência: a alta da inflação, puxada pelo combustível em razão da guerra no Oriente Médio.
O último Boletim Focus do BC mostra que a inflação esperada pelo mercado para este ano é de 4,7%. Com isso, a projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação, voltou a ficar acima do teto da meta de 4,5%.
Se a perspectiva de alta da inflação se confirmar nos próximos meses, o BC deve reduzir o ritmo de corte nos juros. Bentes diz que, antes da guerra, tudo levava a crer que haveria uma trajetória de declínio da inadimplência ao longo de 2026 por conta da queda da taxa básica de juros.
“O que a gente não esperava é que o choque promovido pela guerra no Oriente Médio e, consequentemente, sobre o petróleo e a inflação aqui no Brasil, fosse se dar poucos meses depois como se deu.” Por isso, diz o economista da CNC, nada garante que essa tendência de arrefecimento da inadimplência se confirme daqui em diante. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.