Quarta-feira, 09 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 8 de setembro de 2026
“A dor precisa ser vivida e atravessada”, afirma Elizabeth Clapés, 28 anos, sobre o tema central de seu novo livro “É assim que você verá amanhã”. Psicóloga, escritora, palestrante e professora especializada em autoestima e relacionamentos interpessoais, Clapés aborda em sua quinta obra a dificuldade de uma sociedade acostumada à imediatidade para lidar com o sofrimento. Ao compreender a saúde sob uma perspectiva integral, ela considera que, se a dor é evitada ou reprimida, “em algum momento ela precisará emergir, porque é uma energia que permanece sem ser processada”.
Fenômeno editorial e das redes sociais, a autora já conquistou mais de 500 mil leitores com seus livros anteriores — Você não é o problema, Perder você para me encontrar, Até você gostar de si mesmo e Querida eu: precisamos conversar — além de reunir mais de 1,5 milhão de seguidores nas plataformas digitais, onde sua trajetória de sucesso começou.
O que a diferencia de outros profissionais com presença nas redes? Segundo ela, é a capacidade de “traduzir a psicologia para a vida real”, tornando o conhecimento acessível a qualquer pessoa. Sua linguagem simples e o uso de analogias descontraídas fizeram dela uma profissional confiável, especialmente para uma geração de jovens acostumada a ouvir termos clínicos e conselhos apresentados de forma distante ou excessivamente técnica.
Quando estava terminando o ensino médio, Elizabeth dividia-se entre cursar psiquiatria ou seguir o sonho de ser escritora. Criada em uma família de médicos, ouviu dos pais:
— Você quer ser escritora? Ótimo. Mas primeiro faça um curso ligado à medicina e depois se dedique à escrita.
Ela acabou escolhendo a graduação em Psicologia e, segundo conta, sua principal motivação sempre foi ajudar as pessoas.
Começou a atender pacientes e a compartilhar conhecimento nas redes sociais. A caixa de mensagens rapidamente ficou lotada e as consultas individuais se tornaram inviáveis. Hoje, dirige a plataforma esmipsicologa.com, voltada à saúde integrativa, onde coordena uma equipe formada por cerca de 50 profissionais das áreas de medicina, psicologia e nutrição.
— Já não atendo pacientes, mas continuo ajudando de outras maneiras, seja por meio dos livros, cursos, workshops, palestras ou supervisionando o trabalho de outros colegas.
Durante sua passagem por Buenos Aires, Elizabeth Clapés conversou com o LA NACION.
Em “É assim que você verá amanhã”, você fala sobre como o tempo transforma a dor. Você acredita que hoje exista uma intolerância social para enfrentar processos longos ou desconfortáveis?
Embora hoje em dia se fale muito na “geração de cristal”, não acredito que isso seja um fenômeno exclusivo dos jovens. Que demonstração maior de intolerância à dor do que a das gerações anteriores, que tentavam amenizá-la com álcool ou outras substâncias? Acho que, até agora, o que as pessoas fizeram foi evitar enfrentar a dor, porque esse é um estado do qual ninguém gosta.
Estamos acostumados a aliviar a dor física com um medicamento, mas não existe nada que faça a dor emocional desaparecer rapidamente. Por isso, é natural querer evitá-la. Talvez a diferença entre as gerações atuais e as anteriores seja apenas que hoje estamos tentando encontrar soluções para esses problemas e sofrimentos.
Como é possível atravessar a dor da melhor forma?
Infelizmente, é preciso vivê-la e atravessá-la. Quando esse processo de luto é ignorado ou evitado, ele permanece pendente e acaba se manifestando por meio de somatizações ou sintomas físicos. Em algum momento, essa dor precisará encontrar uma forma de sair, porque é uma energia que ficou sem ser canalizada. No livro, recomendo permitir que a dor siga seu curso e, sempre que possível, tratar a si mesmo com autocompaixão. Também não podemos esquecer da atitude: é fundamental evitar a paralisia. Eu chamo esses acontecimentos de “precursores da mudança”. São todas aquelas situações que nos obrigam a transformar algum aspecto da nossa vida, seja o trabalho, o relacionamento ou a tomada de uma decisão importante. Em resumo, a dor está nos dizendo que existe algo na nossa vida que precisa mudar.
E em relação ao amor romântico, quais crenças você gostaria de desconstruir?
Acho que já superamos muitas delas. Por exemplo, frases como “quem ama não faz chorar” ou “ciúmes é prova de amor”. O próximo desafio — especialmente nesta sociedade da imediatidade em que vivemos — é abandonar a ideia de que o amor precisa ser perfeito e permanecer estável o tempo todo. É preciso entender que todo relacionamento passa por fases, enfrenta crises e que nem sempre vamos gostar de tudo no parceiro. Para que uma relação funcione, é essencial aceitar a imperfeição como uma característica inevitável dos vínculos afetivos. Também precisamos deixar de acreditar em mandatos como o de permanecer com a mesma pessoa por toda a vida. É possível se apaixonar por outra pessoa; uma separação não representa um fracasso; e relacionamentos poliamorosos existem. É possível manter vínculos com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, desde que isso seja consensual. Embora a monogamia ainda seja o modelo predominante de relacionamento, precisamos ampliar nosso olhar para outras formas de viver os afetos. Com informações do O Globo.