Quarta-feira, 06 de Maio de 2026

Home Colunistas O crédito rural sob tensão: produtores contestam o monitoramento por satélite

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A nova exigência para a concessão de crédito rural, implementada pelo governo federal, desencadeou uma forte reação de produtores e analistas do setor. A regra imposta obriga as instituições financeiras a utilizarem dados do Prodes (Programa de Monitoramento do Desmatamento por Satélite) como critério determinante para a liberação de financiamentos, iniciativa que vem sendo vista como problemática por diferentes segmentos do agronegócio.

Pelo modelo implementado, qualquer indício de desmatamento identificado por imagens de satélite pode levar ao bloqueio automático do crédito. A principal controvérsia está no fato de que o sistema não diferencia intervenções legais, devidamente autorizadas pelos órgãos ambientais, de práticas ilegais.

Relatos de produtores apontam falhas recorrentes na interpretação das imagens. Entre os casos citados estão a classificação equivocada da remoção de pomares antigos como desmatamento irregular, a identificação de áreas em pousio como supressão de vegetação, o corte de florestas plantadas (como eucalipto) tratado como remoção de mata nativa, além da inclusão indevida de áreas agrícolas consolidadas como vegetação natural. Essas inconsistências têm gerado insegurança nas análises de crédito, atingindo inclusive produtores que atuam em conformidade com a legislação ambiental.

Embora exista a possibilidade de contestar os alertas emitidos pelo Prodes, o procedimento é considerado burocrático e oneroso. As normas exigem documentação técnica detalhada, como Autorizações de Supressão de Vegetação (ASV), Termos de Ajuste de Conduta (TAC) e laudos periciais que comprovem a inconsistência dos alertas, elaborados por profissionais habilitados, o que implica em custos elevados e prazos prolongados.

Outro ponto de tensão envolve a atuação do poder público. O Código Florestal já condiciona a concessão de crédito à comprovação de regularidade ambiental, por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR), cuja validação é responsabilidade do Estado.

Apesar de já ter sido realizado pela maioria dos proprietários rurais, às suas custas, apenas 7% dos cadastros foi efetivamente validada pelo órgão oficial até agora. Diante dessa lentidão, para compensar a sua ineficiência, a “solução fácil” encontrada pelo governo foi transferir aos agentes financeiros uma responsabilidade que é estatal, ampliando a insegurança jurídica e encarecendo o crédito rural, que já apresenta custos elevados no país.

No campo jurídico, também surgem questionamentos relevantes. Especialistas avaliam que o bloqueio preventivo, baseado em indícios, pode violar o princípio constitucional da presunção de inocência, ao exigir que o produtor comprove previamente sua regularidade ambiental, invertendo, na prática, o ônus da prova.

Em resposta às críticas, a Frente Parlamentar da Agropecuária articula no Congresso Nacional a suspensão da medida. Os Projetos de Lei 169/2026 e 181/2026 propõem o adiamento da resolução, sob o argumento de que ela impõe exigências desproporcionais, amplia a burocracia e gera incertezas operacionais e jurídicas no setor.

Para os produtores, o cenário atual reforça a percepção de que, mais do que apoio, o que o ambiente regulatório tem imposto, são novos obstáculos à atividade rural.

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