Terça-feira, 14 de Julho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 14 de julho de 2026
Se o seu parceiro nunca correu sob um temporal para lhe entregar um guarda-chuva, nunca carregou você no colo depois de um tombo e jamais colocou suas mãos geladas dentro do bolso do próprio casaco para aquecê-las… observe: você provavelmente está vivendo um relacionamento com um ser humano de verdade, e não com o protagonista de um K-drama.
Nos últimos meses, comecei a perceber algo curioso no consultório.
Não foi uma paciente. Nem duas. Foram várias.
Mulheres inteligentes, independentes, profissionalmente bem-sucedidas chegavam ao divã trazendo uma sensação difícil de explicar. Diziam estar cansadas dos relacionamentos, desanimadas e, sobretudo, incapazes de se encantar.
Até que uma delas, muito envergonhada, sorriu e confessou:
— Tati… acho que os doramas estragaram minha vida amorosa.
Sorrimos juntas, mas aquela frase ficou ecoando na minha cabeça. Enquanto ela falava, percebi que não estava falando apenas dos doramas. Talvez apenas tenha despertado um questionamento que muitas mulheres deixaram de fazer: ainda é permitido desejar romantismo?
Os K-dramas transformaram o romance em uma experiência cuidadosamente coreografada. O afeto chega devagar. Os olhares dizem mais do que os diálogos. O toque das mãos vale mais do que uma cena de sexo. O homem observa, espera, percebe, protege. Quase nunca tem pressa. Quase sempre sabe exatamente o que fazer.
É impossível não entender o encanto. Depois de horas assistindo histórias em que o amor é construído com delicadeza, respeito e presença emocional, muitas mulheres voltam para a vida real encontrando mensagens monossilábicas enviadas de madrugada, conversas rasas e encontros onde a atenção parece disputar espaço com a tela do celular.
O que começou como entretenimento acabou despertando uma saudade silenciosa do romantismo. E, talvez, esse seja o verdadeiro fenômeno.
Pensando na realidade, essas pacientes não sonham com jantares luxuosos nem com performances cinematográficas na intimidade. Elas suspiram por algo muito mais simples: alguém que escute com interesse, que repare no cansaço estampado no rosto, que caminhe ao lado sem transformar toda demonstração de carinho em obrigação.
Redescobriram que o erotismo, muitas vezes, nasce antes do quarto. Nasce na segurança emocional.
Não por acaso, o Brasil tornou-se um dos maiores consumidores de doramas fora da Ásia. Ao mesmo tempo, cresce a percepção, dentro dos consultórios, de mulheres frustradas por relacionamentos que parecem incapazes de competir com o roteiro da ficção.
Mas existe uma armadilha delicada nesse movimento. Os protagonistas dos doramas não surgem espontaneamente da realidade. Eles são personagens cuidadosamente escritos para emocionar.
Sabem a hora de falar, silenciar, e cada gesto foi construído para provocar exatamente a reação que sentimos diante da tela.
Nenhum relacionamento real possui roteiristas. Quando passamos a comparar pessoas reais com personagens idealizados, corremos o risco de transformar a imperfeição humana em decepção permanente.
E é justamente aí que o amor começa a perder espaço. O perigo nunca esteve nos doramas.
Está em usá-los como anestesia para aquilo que todo relacionamento inevitavelmente é: imperfeito.
O amor da vida real faz barulho. Interrompe. Desorganiza. Esquece datas.
Às vezes, também esquece de fechar a tampa da pasta de dente. Mas permanece firme ao seu lado.
Talvez, o exercício mais importante seja reaprender a enxergar o afeto onde ele realmente acontece. No café que alguém trouxe sem você pedir. Na mensagem perguntando se chegou bem. Na louça lavada depois de um dia difícil. No abraço silencioso quando nenhuma palavra resolve.
O amor de verdade raramente vem acompanhado de trilha sonora. Ele não acontece em câmera lenta. Não termina no episódio doze. Ele rende anos. Às vezes, décadas.
E, talvez, o maior romance da vida adulta seja justamente este: descobrir que alguém imperfeito continua escolhendo você todos os dias e permita que você cuide dele também.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Dias Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante