Segunda-feira, 07 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de setembro de 2026
Existem lugares que servem café. E existem lugares que, por algum motivo difícil de explicar, servem também alguns minutos de vida…
Eu estava quase chegando à editora, um pouco adiantado, quando, ainda dentro do Uber, uma cena chamou minha atenção. A uma quadra do meu destino, havia uma cafeteria charmosa, na esquina da Marquês do Pombal com a Coronel Bordini, em Porto Alegre, dessas que parecem convidar a cidade a diminuir o passo.
Numa das mesas da calçada, um casal muito elegante conversava tranquilamente. Ele, bem vestido, estiloso, tinha qualquer coisa de professor de literatura ou de língua estrangeira. Ela me lembrou uma advogada, uma especialista em marketing ou talvez a CEO de alguma empresa.
Não sei por quê. Talvez fosse apenas a roupa, a postura, o jeito de conversar. Mas, durante os poucos segundos em que o carro se aproximava, comecei a imaginar quem eram aquelas duas pessoas. Qual seria a história delas? De onde vinham? Para onde iriam depois daquele café?
Então, percebi uma coisa curiosa: enquanto eu inventava histórias sobre elas, eu também era apenas mais uma das tantas vidas que passavam diante dos seus olhos.
Pedi ao motorista que parasse ali mesmo. Desci. Não para investigar casal algum, é claro. Apenas porque tive vontade de participar daquele pequeno mundo. De deixar de ser, por alguns minutos, alguém que simplesmente passava pela esquina e me transformar também em observador.
Preferi uma mesa na calçada, uma xícara de café e um cigarro como companhia…
A segunda xícara veio antes que eu percebesse. Talvez seja esse o perigo dos cafés: eles desaceleram o relógio.
Sentado ali, comecei a observar a cidade. Pessoas passando com pressa, carros parando, conversas que duravam apenas o tempo de atravessar uma esquina.
Alguém entrava, alguém saía. Histórias começavam e terminavam diante de mim sem que seus personagens soubessem que estavam sendo atentamente observados por este cronista.
É nesse momento que o escritor desperta. Porque o cronista vive numa posição curiosa: está dentro e fora da vida ao mesmo tempo. Participa do mundo, mas também o observa em cada detalhe.
Aquilo que para os outros é apenas uma senhora esperando o ônibus, um casal discutindo baixinho ou um homem sozinho diante de uma xícara pode, de repente, transformar-se numa história de alegria, tristeza ou melancolia…
Talvez seja por isso que uma simples mesa de café possa significar tanto: uma pausa para a vida, um momento de reflexão, aquele instante em que o mundo parece parar e sua única preocupação passa a ser manter o café na temperatura certa e descobrir quanto ainda resta na xícara…
Talvez, por isso, eu goste tanto desses cafés meio elegantes, dessas mesas na calçada, desse pequeno ritual de sentar sem a obrigação imediata de levantar, de ver gente bonita e elegante entrando e saindo, cada um com sua história, cada um com sua vida…
Não é apenas o café. É o intervalo…
Durante alguns minutos, não somos exatamente aquilo que fomos antes de entrar, nem aquilo que teremos de ser quando levantarmos da cadeira.
Estamos simplesmente ali. Observando. Pensando. Existindo…
Depois, a xícara esvazia, o cigarro termina, o relógio chama novamente e precisamos voltar àquilo que costumamos chamar de vida.
E, então, o ciclo se inverte: o observador passa a ser observado…
Quando saio desse pequeno mundo, às vezes fico pensando que talvez a vida estivesse justamente ali.
Naqueles poucos minutos em que acreditávamos estar apenas esperando. Entre um compromisso e outro, às vezes existe uma mesa, uma xícara e um pequeno intervalo onde a alma consegue nos alcançar e os pensamentos parecem finalmente encontrar sua ordem.
E, talvez, o poeta apareça justamente aí: quando aquele lugar deixa de ser apenas mais um café nas esquinas da vida e passa a significar alguma coisa muito maior.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho