Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

Home Colunistas O que aprendi com o Mão Santa

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Iniciei minha vida de palestrante apenas depois da pandemia. Até então, falar em público era um desafio quase intransponível. Um microfone, para mim, parecia uma arma apontada contra a cabeça: intimidava, paralisava, tirava o ar. Mas a vida tem dessas ironias que nos empurram para o inesperado. Minha estreia aconteceu em um evento para profissionais da área de energia solar.

A sala estava lotada, corredores ocupados, gente nos cantos — uma movimentação incomum. Não era exatamente por mim, mas porque logo após minha fala viria a palestra magna de Oscar Schmidt, o Mão Santa. Eu, um estreante nervoso, fui o “aquecimento” para o maior palestrante do Brasil.

A sensação foi de honra e de espanto. Honra por dividir o palco, ainda que de forma indireta, com um ídolo que eu acompanhava desde a juventude. Espanto por perceber que minha estreia se tornava ainda mais simbólica: eu estava diante de uma plateia que aguardava ansiosamente por Oscar, e cabia a mim segurar o microfone antes dele. O nervosismo se transformou em combustível. Se eu precisava vencer o medo, aquele era o momento.

Quando Oscar entrou, a atmosfera mudou. Ele tinha uma presença que não se explicava apenas pelo tamanho físico ou pela fama. Era um líder nato. Conduzia a plateia como quem conduz um time em quadra: todos atentos, todos envolvidos, todos dentro da narrativa. Apesar de polêmico em sua carreira esportiva, sabia transformar histórias pessoais em lições universais. Falava de disciplina, de coragem, de superação, e cada palavra parecia ganhar peso porque vinha de alguém que havia vivido tudo aquilo.

O que mais me marcou foi perceber o poder da palavra. Oscar não precisava de slides sofisticados ou recursos tecnológicos. Bastava sua voz, sua memória e sua paixão. Ele fazia a plateia viajar para Indianápolis em 1987, sentir a vibração da vitória contra os Estados Unidos, entender o que significava carregar o Brasil nos ombros. Era lindo, era inspirador. E eu, como ouvinte atento, absorvia cada detalhe, cada pausa, cada sorriso.

Essa experiência me ensinou que comunicar-se não é apenas falar, mas envolver. Não é apenas transmitir informações, mas criar conexão. Oscar Schmidt me mostrou que a palavra pode ser tão poderosa quanto um arremesso certeiro de três pontos. Desde aquele dia, minha relação com o microfone mudou. Ele deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma ferramenta. Aprendi que, se eu colocar verdade naquilo que digo, a plateia vai me acompanhar.

O legado de Oscar para o Brasil vai muito além das quadras. Ele nos ensinou que é possível desafiar gigantes, que a coragem pode transformar destinos, que a liderança se constrói com autenticidade. Como palestrante, ele levou essa mesma energia para empresas, eventos e pessoas comuns, mostrando que o esporte é metáfora da vida.

Eu guardo múltiplos agradecimentos. Agradeço pela inspiração que recebi desde jovem, acompanhando sua trajetória como atleta. Agradeço pela honra de ter dividido um palco com ele, ainda que como preliminar. Agradeço pelo aprendizado que mudou minha forma de me comunicar. E agradeço, sobretudo, por ter visto de perto como um ídolo pode se tornar mestre, não apenas pelo que fez, mas pelo que ensinou.

Oscar Schmidt, o Mão Santa, deixou ao Brasil um legado de pontos, vitórias e histórias. Mas deixou também algo maior: a certeza de que a palavra, quando usada com paixão e verdade, pode transformar vidas. A minha, sem dúvida, foi transformada.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com

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