Sábado, 02 de Julho de 2022

Home Mundo Organização do Tratado do Atlântico Norte vê risco de conflito na Ucrânia após nova reunião fracassada com a Rússia

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A reunião entre a aliança militar liderada pelos Estados Unidos e o governo russo sobre a crise na fronteira com a Ucrânia terminou sem acordo, deixando ainda mais tensa a crise de segurança na Europa. “Há diferenças significativas entre a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a Rússia, que não serão fáceis de acomodar, e há um risco real de conflito armado na Europa”, disse Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan. Apesar do tom sóbrio, Stoltenberg disse que “é um sinal positivo que todos sentaram à mesas e conversaram sobre os tópicos”.

Stoltenberg sugeriu que não havia solução para o impasse sobre a principal demanda da Rússia de que a Ucrânia e outros países do Leste Europeu, bem como outros ex-Estados soviéticos, sejam impedidos de ingressar na aliança militar. Oficiais da Otan já disseram que essa é uma demanda inaceitável. “Tanto a Rússia quanto os aliados da Otan expressaram a necessidade de retomar o diálogo e explorar um cronograma para futuras reuniões”, disse. Como parte das discussões, Stoltenberg disse que a aliança falou sobre controle de armas e abordando “limitações recíprocas sobre mísseis”.

Ele disse que os 30 países da Otan querem discutir maneiras de prevenir incidentes militares perigosos, reduzir ameaças espaciais e cibernéticas, bem como controle de armas e desarmamento, incluindo o estabelecimento de limites acordados para implantações de mísseis. Mas Stoltenberg disse que qualquer conversa sobre a Ucrânia não seria fácil.

Stoltenberg sublinhou que a Ucrânia tem o direito de decidir seus futuros arranjos de segurança por conta própria e que a Otan continuará a deixar sua porta aberta para novos membros, rejeitando uma demanda importante do presidente russo, Vladimir Putin, de que a organização militar interrompa sua expansão. “Ninguém mais tem nada a dizer e, claro, a Rússia não tem poder de veto”, disse ele.

Aprovar um acordo para impedir a entrada de determinados exigiria que a Otan rejeitasse uma parte fundamental de seu tratado fundador. De acordo com o artigo 10 do Tratado de Washington de 1949, a organização pode convidar qualquer país europeu disposto que possa contribuir para a segurança na área do Atlântico Norte e cumprir as obrigações de membro. Em Moscou, o porta-voz do Kremlin, Dimitri Peskov, alertou que a Rússia espera uma resposta rápida.

A negociadora americana, Wendy Sherman, afirmou que “se os russos deixarem a mesa de negociação, ficará claro que eles nunca foram sérios nas suas intenções”. De fato, desde 2019 não havia um encontro do chamado Conselho Otan-Rússia, e ambos os lados romperam relações diplomáticas no ano passado. O fórum foi criado há duas décadas, mas as reuniões completas foram interrompidas quando a Rússia anexou a Península da Crimeia, na Ucrânia, em 2014.

A reunião ocorre depois de conversa no mesmo tom, mas com alguma abertura, ocorrida em Genebra entre russos e americanos na segunda-feira, 10. E antecede um encontro final, nesta quinta-feira (13), no fórum da Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena – essa, enfim, com a presença dos ucranianos.

As conversas nesta semana têm o objetivo de diminuir as tensões sobre a concentração de tropas russas perto da Ucrânia, o que provocou temores de que Putin esteja se preparando para lançar um novo ataque contra o país.

Resposta ‘técnico-militar’

Autoridades relatam que a Rússia deslocou cerca de 100 mil soldados para a fronteira ucraniana e continua a aumentar sua presença militar – mesmo enquanto os funcionários dos EUA, da Otan e da União Europeia prometem consequências severas se a Rússia invadir a Ucrânia. A Rússia nega que planeja atacar, mas Putin acusou a Otan de ameaçar a segurança russa e alertou para uma resposta “técnico-militar” a quaisquer “medidas hostis”.

“Ter conversas com a Rússia é preferível a não tê-las e pode evitar uma guerra”, disse Sam A. Greene, diretor do Instituto Russo do King’s College London. Greene disse que ninguém pode prever exatamente quais são os planos ou intenções de Putin e que as discussões não serão “um processo rápido ou fácil”.

“Discussões estratégicas são melhores do que a guerra e podem alcançar melhores resultados para todos do que uma guerra. É um grande empreendimento diplomático”, disse Greene. “É possível que essas posições mudem com o tempo? Sim, é por isso que falamos.”

A embaixadora dos EUA na Otan, Julianne Smith, disse que, em conversas com os Estados membros, “tornou-se claro que nem um único aliado dentro da aliança da Otan está disposto a ceder ou negociar qualquer coisa relacionada à política de ‘portas abertas’ da aliança”, que permite que qualquer país se junte à organização. Falando em uma ligação com repórteres na terça-feira, Smith disse que “não consegue imaginar nenhum cenário em que isso possa ser discutido”.

Smith disse que uma cúpula de Bucareste, em 2008, concluiu que admitir a Ucrânia e a Geórgia na Otan era uma questão de “não se, mas quando”. Ela chamou as exigências da Rússia de descartar a possibilidade de expansão da aliança para essas nações e outras de um “não começo”.

Peskov, por sua vez, disse que a Rússia vê a política de portas abertas da Otan como uma ameaça e precisa de garantias de segurança juridicamente vinculativas. Ele disse que a Rússia está “aberta ao diálogo”, apesar da situação difícil, mas que “ameaças” de autoridades dos EUA que entraram nas negociações foram inúteis.

Peskov acrescentou que a Rússia esperará a conclusão dessas negociações e a próxima rodada com a OSCE antes de decidir sobre outras ações. “Não gostaríamos de, como as autoridades americanas, despejar ameaças, ultimatos, prever um alto preço a ser pago. Não gostaríamos de ser assim”, disse Peskov.

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