Terça-feira, 16 de Agosto de 2022

Home Você viu? Os superalimentos desprezados que poderiam ajudar a reduzir a fome no Brasil

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A cada ano, entre 60 e 70 milhões de toneladas do fruto mais rico em carotenoides do mundo amadurecem no Brasil, mas só uma ínfima parcela é aproveitada por humanos. A informação está em “Frutas comestíveis na Amazônia”, livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante, lançado em 2010.

A estimativa trata do buriti, fruto de uma palmeira abundante na Amazônia e no Cerrado, mas desprezado pela indústria alimentícia.

As propriedades antioxidantes do buriti ajudam a prevenir câncer e outras doenças. Versátil, ele pode ser consumido in natura ou transformado em farinha, doces e pães.

Ainda assim, o fruto é uma das várias espécies alimentícias nativas do Brasil que têm perdido espaço em lares, restaurantes e mercados ao mesmo tempo em que a fome cresce e a comida encarece no país.

Muitas dessas espécies produzem frutos comestíveis. Outras são hortaliças que nascem espontaneamente em campos agrícolas e canteiros, mas são vistas como ervas “daninhas”.

Em comum, muitas delas são considerados superalimentos por terem grande quantidade de nutrientes – como minerais, vitaminas e antioxidantes.

Matos comestíveis

Resistentes, várias hortaliças espontâneas comestíveis toleram grandes variações climáticas e dispensam cuidados especiais. Um exemplo é o caruru, que tem folhas com propriedades semelhantes às do espinafre e sementes com 17,2% de proteínas.

Outra planta é a beldroega, rica em ômega-3 e nas vitamina B e C, além de ter propriedades antioxidantes.

Todos os anos, porém, muitos agricultores recorrem a herbicidas para destruir grandes quantidades de caruru e beldroega antes de substituí-las por espécies exóticas. E, em muitos casos, as novas espécies plantadas têm menos nutrientes que as anteriores, são mais sujeitas a pragas e são dependentes de fertilizantes, cujos preços também estão em alta.

Pesquisador do ramo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) dedicado a hortaliças, o agrônomo Nuno Rodrigo Madeira diz à BBC News Brasil que hortaliças como o caruru e a beldroega têm mais nutrientes que várias verduras convencionais justamente por serem mais resistentes.

“Como elas não são adubadas, elas disparam processos metabólicos para conseguir viver na adversidade e aguentar calor e seca, e isso faz com que fiquem mais nutritivas para a gente”, afirma.

Para Madeira, o desprezo por essas espécies se deve ao “afastamento entre a sociedade e a origem do alimento”.

“Nós nos distanciamos da produção, só entendemos mercados, e o ente mercado quer que a gente gaste mais, senão o PIB reduz”, afirma.

Vender nos supermercados hortaliças que crescem sozinhas como “matos”, diz ele, não seria tão lucrativo quanto vender as verduras convencionais – daí a resistência do setor em incorporar esses itens.

Só a lógica comercial, segundo Madeira, explica que em uma cidade quente como Manaus agricultores recorram a pedras de gelo para conseguir cultivar hortaliças como a alface, enquanto tantas espécies nativas adaptadas ao calor são deixadas de lado.

E isso não ocorre só no Brasil.

Professor do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manaus, o botânico Valdely Kinupp diz à BBC que 90% do alimento mundial hoje vem de 20 tipos de plantas – embora se estime que até 30 mil espécies vegetais tenham partes comestíveis.

Os números soam ainda mais paradoxais no Brasil, país que abriga entre 15% e 20% das espécies vegetais do planeta, mas alimenta a maior parte de sua população com o mesmo cardápio limitado – e majoritariamente estrangeiro.

São estrangeiros quase todos os principais produtos agrícolas do país, como a soja (China), o milho (México), a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), a laranja (China), o arroz (Filipinas) e a batata (Andes).

Entre as raras plantas que fizeram o caminho inverso, saindo do Brasil para ganhar outras partes do mundo, estão a mandioca, o cacau e o amendoim.

“É muito pouco”, diz Kinupp. “Vivemos um imperialismo agroalimentar.”

No livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil”, que Kinupp lançou com o colega botânico Harri Lorenzi em 2014, são listadas 351 espécies alimentícias “subutilizadas, mal conhecidas e negligenciadas” pela população brasileira.

Muitas delas são nativas; outras, espécies exóticas já naturalizadas e aclimatadas ao país. Várias são conhecidas por uma série de nomes populares distintos (para evitar confusão, listamos no fim desta reportagem os nomes científicos das principais espécies citadas nesta reportagem).

Kinupp é um dos principais líderes no Brasil de um movimento pela valorização das PANC, o acrônimo que batiza seu livro.

Nos últimos anos, embalados pelo movimento, alguns mercados e feiras ampliaram a oferta de PANC, chefs as incorporaram em restaurantes, e cozinheiros criaram contas no Instagram e YouTube para compartilhar receitas.

Mas ele afirma que ainda falta muito para que essas plantas deixem de ser consideradas “não convencionais”.

No caso das espécies silvestres presentes na lista, por exemplo, é preciso que agricultores e instituições de pesquisa se dediquem a estudá-las – assim como fazem há milênios com plantas como o arroz e o trigo.

E quando a planta só existe em ambientes naturais, como o buriti, deve-se trabalhar com comunidades tradicionais e pequenos agricultores para apoiar redes de coleta, beneficiamento e comercialização com preço justo.

O que é PANC

Kinupp esclarece que algumas plantas do livro são consumidas em partes do país, mas ignoradas em outras.

Uma das espécies que mais o entusiasmam é o cará-de-espinho, uma trepadeira nativa das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste que produz tubérculos comestíveis que podem ultrapassar 180 kg.

“Essa planta é a solução para a agricultura no trópico úmido”, afirma. Segundo o pesquisador, os tubérculos podem ficar armazenados por até 120 dias fora da geladeira sem apodrecer e podem ser consumidos como a batata (frita, cozida, em purê) ou virar farinha.

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