Terça-feira, 02 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de junho de 2026
Em uma conversa de amigos que almoçam juntos há 30 anos, surgiu a discussão sobre a palavra – chope ou chopp – cuja etimologia constatou-se ser bastante pitoresca.
Na Alemanha, choppen era uma antiga unidade de volume variável de 300 ml a 500 ml, na qual eram servidos copos ou canecas de cerveja.
Como praticamente todos bebiam cerveja, os clientes nas tavernas pediam um choppen, uma medida. (Óbvio que a bebida era cerveja.)
No Brasil, os imigrantes alemães, no século XIX, diziam nos balcões dos bares: “ein Schoppen Bier”, traduzindo (um copo de cerveja).
O termo foi sendo resumido e aportuguesado, passando a designar cerveja não pasteurizada de produção recente, o nosso tradicional chope.
Nada errado, então, em dizer:
Vamos tomar um chopp de cerveja!
Mas, valendo-me das conversas dos amigos de almoço executivo, seguem outras palavras pitorescas do nosso dia a dia.
A conhecida “chimia”.
Nas colônias alemãs, o termo gerava uma divertida confusão linguística.
Schmier era a designação da graxa usada para lubrificar os eixos das carroças, carretas e engrenagens agrícolas.
Como o ato de passar a geleia ou o doce de frutas no pão lembrava o ato de “untar” ou “espalhar” a graxa, os colonos passaram a chamar o doce de Schmier.
Daí nasceu a famosa expressão colonial: “Tudo que se passa no pão é schimier, mas nem toda schimier se passa no pão”.
Outra boa dos alemães é o serigote.
O serigote é uma espécie de sela usada na montaria de cavalos; que eu saiba, a expressão é bem regional.
O termo é uma corruptela (deturpação fonética) da expressão em alemão “sehr gut”, que significa “muito bom”.
A lenda e o folclore gaúcho contam que, durante a imigração alemã no sul do país, colonizadores apresentaram aos tropeiros e cavaleiros locais uma nova espécie de sela ou almofada muito macia.
Ao testarem a novidade e elogiarem o conforto do assento, os gaúchos repetiam a expressão germânica que ouviam dos colonos, “sehr gut”, abrasileirando a pronúncia para “serigote”.
A língua portuguesa é riquíssima em palavras de origem interessante; escolhi uma bem pitoresca:
Guisado.
Vem do particípio passado do verbo guisar (cozinhar a partir de um refogado).
Por sua vez, esse verbo tem origem no termo germânico wisa (que significa “maneira” ou “jeito”), que passou para o francês antigo como guise e, posteriormente, chegou ao português.
Fiquei surpreso em saber que guisado é um verbo.
Algumas lendas.
A etimologia de forró do inglês “for all” é uma lenda urbana.
A palavra deriva, na verdade, de forrobodó. Esse termo, registrado no Brasil desde o século XIX, tem origem controversa.
Uma das possibilidades é que a palavra seja de origem africana (das línguas bantas) ou galega, significando festa, arrasta-pé ou baderna.
A outra é a origem etimológica do francês (faux-bourdon), ou “falso bordão”, referindo-se a uma técnica musical medieval.
No Brasil, passou a ser associada à “desentoação” e, depois, a um som ou ritmo de festas.
A conexão com “for all” (que significa “para todos”) é uma história popular. Acredita-se que tenha surgido por dois caminhos:
Durante a Segunda Guerra Mundial, tropas americanas instalaram uma base em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, ou, antes disso, por engenheiros britânicos que construíam ferrovias em Pernambuco e promoviam bailes abertos.
Apesar de a versão em inglês ser romântica e inclusiva, a ciência linguística refuta essa teoria, comprovando que o ritmo tipicamente nordestino abraçou o som de “forró” através do natural aportuguesamento e redução da palavra “forrobodó”.
O termo ganhou os significados de “baile popular animado” e, por extensão, “confusão ou algazarra”.
O galego (forbodô) serviu como ponte para a adaptação fonética que gerou o vocábulo utilizado no português.
Etimologistas como Luís da Câmara Cascudo apontam que “forró” é apenas uma abreviação natural da palavra forrobodó.
* Rogério Pons da Silva – jornalista e empresário (rponsdasilva@gmail.com)