Terça-feira, 02 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de junho de 2026
Talvez uma das maiores surpresas da vida adulta seja descobrir que ela não entrega exatamente as certezas que nos prometeram.
Crescemos imaginando que existia um momento de chegada. Um ponto da vida em que finalmente saberíamos quem somos, teríamos estabilidade financeira, relações seguras, clareza profissional e uma sensação tranquila de controle.
E essa imagem foi construída por muitos lugares: pelos filmes, pelas revistas, pelas séries que mostravam mulheres independentes, fortes, bem-sucedidas e aparentemente resolvidas. Pela ideia de que bastava estudar, trabalhar duro, fazer escolhas corretas e, em algum momento, tudo se encaixaria.
E nós fizemos. Estudamos. Trabalhamos. Construímos carreiras. Cuidamos dos outros. Fizemos cursos, especializações. Planejamos. Tentamos ser responsáveis. Mas algo curioso aconteceu: chegamos aos 35, 40, 50 ou 60 anos e percebemos que a vida não tinha parado para nos entregar o certificado da estabilidade.
Muitas pessoas estão reconstruindo carreira quando imaginavam estar consolidando, encerrando relacionamentos quando acreditavam ter encontrado respostas definitivas, mudando de cidade, de propósito, de rotina. Algumas estão começando de novo justamente no momento em que imaginavam que já deveriam ter chegado. E talvez o erro nunca tenha sido mudar, talvez o erro tenha sido acreditar que amadurecer significava permanecer igual.
Durante muitos anos, minhas escolhas acadêmicas acompanharam as áreas em que eu atuava. Eu busquei MBAs, especializações e formações que me tornassem melhor naquilo que eu construía profissionalmente. Estudei administração, design, arquitetura, negócios, hospitalidade, moda, pois sempre existiu em mim essa inquietação de aprofundar conhecimento e transformar aprendizado em prática.
Mas recentemente percebi uma mudança curiosa: hoje eu não quero entender apenas mercados, tendências ou setores. Eu quero entender pessoas. E descobri que esse caminho começa por um lugar menos confortável: entender a mim mesma.
Comecei há pouco uma pós-graduação em Neurociência e Comportamento, não para encontrar respostas prontas sobre quem somos, mas para compreender melhor como pensamos, como mudamos, por que repetimos padrões, por que insistimos em algumas escolhas e por que tantas vezes precisamos reconstruir nossa própria identidade ao longo da vida. Assim como muitas pessoas, eu também passo por essas mudanças.
E uma das ideias que mais tem me chamado atenção nos estudos é perceber que fomos educados para um modelo de identidade muito diferente do mundo atual.
Durante muito tempo, escolhia-se uma profissão, estudava-se para ela e seguia-se nela por décadas. Existia uma lógica de permanência. Mas hoje aprendemos e desaprendemos em ciclos muito mais curtos. Antes quem atuava em várias áreas, era visto como uma pessoa dispersa, hoje quem entende várias áreas sai na frente.
O mercado muda, a tecnologia muda, os modelos de trabalho mudam, os papéis sociais mudam. E nós mudamos junto.
Mas existe um conflito nessa mudança, pois o nosso cérebro busca previsibilidade porque previsibilidade traz sensação de segurança. Mas o mundo atual recompensa adaptação.
Isso explica o fato de tanta gente estar cansada sem entender exatamente por quê. Estamos tentando viver em velocidade de reinvenção constante carregando uma expectativa antiga de estabilidade, porém, isso exige algo que não nos foi ensinado: flexibilidade psicológica.
Quanto mais estudo comportamento humano, mais percebo que amadurecer não é atingir uma versão final de si mesmo, e sim, desenvolver consciência suficiente para reconstruir a própria identidade sem perder a essência.
Durante muito tempo, eu achei que trabalhava com imagem, comunicação ou estratégia, mas hoje entendo que, no fundo, trabalho com identidade. No posicionamento de marca pessoal, antes de escolher o que comunicar, existe uma pergunta mais profunda: quem você continua sendo quando aquilo que sustentava sua identidade muda?
Vejo isso nas mentorias, nos empresários, nos profissionais em transição e em mulheres que chegam dizendo que perderam o rumo. Na maioria das vezes, elas não perderam, só cresceram além da versão que construíram de si mesmas.
Pra mim, amadurecer é ter coragem de editar a própria narrativa sem abandonar a própria essência. A vida adulta não é sobre finalmente ter todas as respostas, mas sobre desenvolver tranquilidade suficiente para continuar fazendo boas perguntas. E perceber que recomeçar não significa que você se perdeu, pode significar apenas que você finalmente começou a se encontrar.

(Suellen Ribeiro – Empresária, mentora em posicionamento de marca pessoal e palestrante. Apresentadora do Jornal da Pampa – Grupo Rede Pampa. Instagram: @suribeiroc)