Terça-feira, 21 de Julho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 20 de julho de 2026
Na primeira parte desta crônica, expliquei como funciona a chamada leitura fria, um conjunto de técnicas psicológicas capaz de criar a impressão de que alguém possui poderes sobrenaturais.
Agora vamos conhecer um dos maiores experimentos sociais já realizados pela televisão brasileira sobre esse tema.
Na década de 2000, o Fantástico vivia um de seus períodos de maior audiência, prestígio e influência. Suas grandes reportagens mobilizavam milhões de brasileiros e repercutiam durante toda a semana.
Foi nesse cenário que, em maio de 2006, nasceu a Operação Bola de Cristal, uma série especial dividida em quatro episódios que mostrava, passo a passo, como um falso vidente poderia ser criado utilizando apenas técnicas de observação, comunicação e leitura fria.
E havia um elemento que tornava o projeto ainda mais marcante: todos os episódios foram narrados por Cid Moreira, dono de uma das vozes mais reconhecidas e emblemáticas da televisão brasileira. Sua narração grave e inconfundível, associada por décadas ao jornalismo e às grandes reportagens do Fantástico, dava à série uma dimensão quase histórica.
Não era apenas uma reportagem sobre falsos videntes. Era um grande acontecimento televisivo conduzido por um dos maiores símbolos da comunicação no Brasil.
Mas é importante deixar algo claro… O objetivo da reportagem nunca foi atacar a fé, a religião ou pessoas verdadeiramente espiritualizadas.
O alvo eram os falsos videntes que exploram emocionalmente pessoas fragilizadas, transformando sofrimento, medo e esperança em um negócio lucrativo. Para isso, a equipe resolveu fazer algo ousado. Criar um falso vidente do zero…
O escolhido foi o ator Osvaldo Mil, que passou a utilizar o nome Ângelo, escolhido propositalmente por remeter à figura do anjo e despertar uma associação inconsciente com espiritualidade. O detalhe mais impressionante era justamente este: ele não possuía qualquer poder paranormal.
Durante aproximadamente seis meses, foi treinado pelo psicólogo e parapsicólogo Jayme Roitman e pelo mágico Kronnus, especialista em leitura fria e comportamento humano.
Curiosamente, o próprio ator acreditava que não conseguiria convencer ninguém. A realidade mostrou exatamente o contrário. À medida que dominava as técnicas de observação, perguntas abertas e linguagem corporal, pessoas completamente desconhecidas passaram a acreditar que estavam diante de alguém capaz de revelar fatos íntimos de suas vidas.
Um falso vidente não precisa acertar tudo… Basta acertar algumas informações, fazer afirmações suficientemente vagas para parecerem pessoais e conduzir a conversa para que o próprio consulente complete as lacunas.
É exatamente assim que funciona a leitura fria. O momento mais impressionante, porém, veio depois.
Quando era revelado que Ângelo era apenas um ator e que tudo fazia parte de um experimento jornalístico, algumas pessoas simplesmente se recusavam a acreditar.
Preferiam pensar que a revelação fazia parte da encenação do que admitir que haviam sido convencidas apenas por técnicas de comunicação e observação.
Esse detalhe revela uma característica muito humana. Quando acreditamos profundamente em alguma coisa, muitas vezes nossa mente resiste até mesmo às evidências.
Por isso, a maior lição da Operação Bola de Cristal continua extremamente atual. Ela não ensina apenas como funciona um falso vidente. Ela ensina como funciona a própria mente humana.
Antes de encerrar, faço questão de repetir aquilo que também afirmei na primeira parte desta crônica. Existem pessoas profundamente espiritualizadas. Existem homens e mulheres de fé admirável.
Existem pessoas extremamente sensíveis ao sofrimento humano. Nada disso está sendo questionado aqui. O problema começa quando alguém utiliza técnicas psicológicas para se apresentar como portador de poderes sobrenaturais e, com isso, manipular emocionalmente pessoas fragilizadas em busca de dinheiro, fama ou poder.
O verdadeiro poder não está nas mãos de quem promete revelar o seu futuro. O verdadeiro poder está no conhecimento, no discernimento, na fé vivida com sinceridade e na capacidade de manter a própria liberdade diante daqueles que tentam transformar esperança em mercadoria.
Porque a verdade pode até demorar para aparecer. Mas ela sempre encontra um caminho para iluminar quem decide enxergar…
Na primeira parte desta série, expliquei como funciona a técnica da leitura fria, consultando o próprio mágico Kronnus. Agora, se você quiser entender esse mecanismo na prática, procure por Operação Bola de Cristal — episódios 1 a 4 — no YouTube ou assista à série pelo Globoplay. Tenho certeza de que você passará a enxergar muitas coisas com outros olhos.
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho