Sábado, 12 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 12 de setembro de 2026
Temos visto de forma recorrente e ao redor do mundo todo, notícias e vídeos de eventos climáticos costeiros extremos, fortes ressacas litorâneas com o mar avançando calçadões e malhas urbanas a alturas que os habitantes locais, às vezes, nunca viram antes. Esse contexto poderá trazer à memória do leitor mais atento a emblemática Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, a Eco-92, evento global da ciência e do ambientalismo que primeiro trouxe ao debate público dados relativos à subida do nível dos mares.
Mas, então, o nível do mar está subindo mesmo? A resposta curta é sim e o processo não é difícil de conceber: o aquecimento global antrópico (causado pelo homem) ocasiona o derretimento das coberturas de neve do planeta, tanto as de regiões polares, quanto as de alta montanha, e esse aporte de água nos oceanos contribui para a elevação progressiva do nível do mar.
Aquecimento global: superando o negacionismo científico
Para muitas pessoas, falar em aquecimento global parece assunto antigo ou superado. Mas esse sentimento é um erro. As informações que se acumulam ano após ano (como as de temperaturas médias anuais) tornam cada vez mais consolidada a tese do aquecimento global. Ele se dá como resultado da intensificação do efeito estufa, aquele conhecido processo atmosférico que estudamos no colégio. O efeito estufa é natural e diz respeito a capacidade da nossa atmosfera de reter parte do calor que chega do sol a nossa superfície. Se não tivéssemos os chamados gases de efeito estufa na atmosfera, o calor do sol se dissiparia muito rapidamente e não teríamos a vida no planeta como temos hoje. O efeito estufa é, então, indispensável à vida. Mas a atividade humana (indústria, queima de combustíveis fósseis, agricultura etc.) aumenta a concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, intensificando então a capacidade do nosso planeta de reter calor.
Também é consenso na Geografia Física, de acordo com os Ciclos de Milankovitch (que estudam excentricidade orbital, obliquidade e inclinação do eixo da terra etc.), que estamos num período interglacial cujo pico de calor ficou para trás há cerca de 7 mil anos, de modo que a tendência, excluindo o fator humano, seria a de lento e progressismo resfriamento das temperaturas até a próxima era do gelo, que chegaria daqui em torno de 10 mil anos. Isso torna evidente que o aquecimento global das últimas décadas é causado pelo homem.
Se esse processo alarmante saiu da conversa do dia a dia do povo, é em função de ideologias de negação da ciência que vimos prosperar em partes da sociedade ocidental, principalmente ancoradas em teorias de conspiração e até mesmo em narrativas de governos e movimentos políticos conservadores, tanto em potências econômicas como os Estados Unidos, quanto em países em desenvolvimento como o Brasil.
Em que ritmo sobe o nível dos mares?
Se foi na Eco-92 que a subida do nível dos mares virou pauta conhecida do grande público, para os cientistas, o consenso em torno do assunto veio dois anos antes, quando da publicação do Primeiro Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. As pesquisas científicas na época chegaram na estimativa de que o nível do mar subiria 0,21 centímetros por ano. Na comparação com o tempo atual, essa estimativa mais que dobrou, sendo hoje de 0,45 cm por ano. De 1990 para cá, o mar já subiu 10 cm, e subiu 20 cm na comparação com o período pré-industrial.
Ano passado, a NASA fez uma declaração preocupante quando informou que, em 2024, a subida do nível dos mares foi de 0,59 cm, bastante acima da média esperada. O instituto norte-americano afirma que podem ter havido distorções nas medidas daquele ano, mas o certo é que a comunidade científica tem consenso de que o nível do mar deverá subir de 50 cm a um metro até 2100, o que afetará gravemente as áreas costeiras globais.
* Henrique Casanova, jornalista e geógrafo