Quinta-feira, 26 de Maio de 2022

Home Rio Grande do Sul Pesquisa revela alto índice de contaminação da água potável em Porto Alegre e outras cidades gaúchas

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Uma tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) apontou na água consumida em Porto Alegre e outras cidades gaúchas um alto nível de contaminação pelos protozoários Giardia e Cryptosporidium. Encontrados em fezes de animais (principalmente bovinos), ambos os microrganismos são causadores de doenças intestinais.

Os demais municípios são Viamão (Região Metropolitana da capital gaúcha), Capão do Leão (Sul do Estado) e Passo Fundo (Noroeste). Conforme o autor do trabalho, engenheiro químico Luciano Zini, a ideia é fornecer subsídios a parâmetros ainda não previstos no Padrão Brasileiro de Potabilidade, destinado a reduzir os riscos à saúde no consumo de água.

A partir de dados disponibilizados por outros estudos, foram utilizados dois tipos de avaliação de risco – química e biológica – por meio de cálculos de probabilidade. Alguns parâmetros estudados ultrapassaram os limites toleráveis de risco infeccioso definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Dentre os resultados das amostras, alguns elementos não listados apresentaram altos índices”, detalha a UFRGS. “Um exemplo é o 17-alpha-etinilestradiol, hormônio sintético lançado no ambiente pela descarga de esgoto doméstico ou efluentes não tratados, e que apresentou concentração 260 mil vezes acima do valor guia.”

Também foi avaliada a ocorrência de protozoários nas estações de tratamento de água do Rio Grande do Sul no período de 2016 a 2020. De 2.304 amostras de água não tratada, 223 apresentaram tais microrganismos, com concentração variando de 0,1 a 21,5 cistos de Giardia e/ou de Cryptosporidium por litro.

“Para alguns sistemas de abastecimento de água, o risco de infecção por Giardia ultrapassou o limite de tolerância definido pela OMS, que é de um caso a cada mil pessoas”, sublinha o documento.

Uma dos fatores atribuídos ao problema é que o gado bovino supera em contingente a população humana no Rio Grande do Sul: são mais de 12 milhões de cabeças de vacas, touros e similares, para 11,3 milhões de humanos.

“Essa é a primeira evidência do risco desses protozoários estarem circulando no ambiente do Rio Grande do Sul e de forma muito intensa, devido ao nosso modelo econômico baseado na pecuária”, pondera Zini.

O pesquisador afirma que o tratamento de esgoto no Estado é escasso, com capacidade instalada de 10 mil litros por segundo mas com apenas metade dessa capacidade sendo utilizada. Isso não atende nem a 30% de toda a demanda gaúcha, além do tratamento comumente aplicado não eliminar esses protozoários.

Motivações do estudo

O engenheiro químico conta que a pesquisa deu continuidade a uma investigação realizada em seu mestrado, quando estudou níveis de agrotóxicos na água para consumo humano. No doutorado, ele partiu de dois casos  que conheceu de perto.

Um aconteceu há cinco anos em Porto Alegre, com a alteração no gosto e no cheiro da água potável. Mesmo com indícios de contaminações químicas na água para consumo humano, as análises de amostras dessa água detectaram níveis aceitáveis pelo padrão de potabilidade vigente, permitindo assim o seu uso.

A outra situação foi registrada em 2018 na cidade de Santa Maria (Região Central), quando o Luciano Zini integrou uma investigação de surto de toxoplasmose em que foi detectada, pela primeira vez no Estado, uma variante do protozoário Toxoplasma gondii, causador da doença.

Até então, esse havia sido o maior surto de toxoplasmose do mundo, com 748 casos confirmados. Além disso, outros motivadores foram pesquisas anteriores que demonstravam presença de Cryptosporidium e Giardia em amostras de água.

Luciano defende que seria necessário ter um esforço de regulamentação da qualidade da água em cada estado. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a legislação prevê a análise de outros agrotóxicos, além dos exigidos pelo padrão nacional. Mais detalhes sobre a tese de doutorado podem ser conferidos em ufgrs.br.

(Marcello Campos)

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