Domingo, 08 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de novembro de 2026
Os brasileiros receberam quase sete em cada dez autorizações de residência concedidas a estrangeiros no Paraguai entre janeiro e outubro de 2026. Segundo a Direção Nacional de Migrações do país, foram 34.794 autorizações destinadas a cidadãos brasileiros, o equivalente a 67% do total.
Entre os fatores que explicam o interesse pelo país estão os baixos impostos, as oportunidades de negócios e a procura por cursos de Medicina. O levantamento também aponta um crescimento de 42% nos pedidos de residência de estrangeiros em relação ao mesmo período de 2025. Foram 54.344 solicitações nos dez primeiros meses deste ano, número superior ao total registrado em todo o ano passado.
O avanço da imigração ocorre, porém, em meio a uma crise bancária e política. Na terça-feira (3), o Banco Central paraguaio suspendeu as operações do Ueno Bank, após identificar problemas financeiros na instituição, deixando clientes, incluindo brasileiros, sem acesso aos recursos depositados.
A instabilidade também chegou ao cenário político. Na sexta-feira (6), foi retomada a sessão que analisa o processo de impeachment do presidente Santiago Peña. Embora tenha anunciado que renunciaria ao cargo, o presidente enfrenta um processo que pode resultar em sua destituição.
Para o pesquisador das relações entre Brasil e Paraguai e professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), Aníbal Orué Pozzo, a crise pode reduzir a chegada de novos moradores e investidores nos próximos anos.
Segundo ele, o crescimento da presença brasileira é resultado de uma política de atração de investimentos e estrangeiros desenvolvida há mais de uma década, intensificada durante o governo de Horacio Cartes, em 2013, e mantida pelas administrações seguintes.
“Nos últimos 12 anos, o Paraguai estruturou uma política para atrair investimentos e pessoas do Brasil. O que vemos hoje é resultado desse processo”, explica.
Uma das iniciativas mais recentes foi a criação, em abril de 2026, do Paraguay Investor Pass, modalidade de residência voltada a investidores estrangeiros. A medida prevê condições específicas para quem pretende aplicar recursos no país, com investimentos a partir de US$ 70 mil, vinculados a um plano de negócios e à geração de empregos.
Além dos empresários, estudantes brasileiros também representam uma parcela expressiva dos estrangeiros que buscam residência no Paraguai. Em 2025, foram concedidas 12.617 autorizações a estudantes do Brasil, alta de 56% em relação a 2022, quando houve 8.098 registros. O número cresceu progressivamente nos anos seguintes: foram 9.627 em 2023 e 11.349 em 2024. Os dados representam autorizações concedidas, não necessariamente a quantidade de estudantes que vivem atualmente no país.
Para Pozzo, a procura por cursos de Medicina ajuda a explicar esse movimento, que também envolve familiares que acompanham os estudantes durante a formação.
“Os estudantes também vêm acompanhados de familiares, como pais e irmãos, o que contribui para aumentar a presença de brasileiros no Paraguai. Parte desse fluxo migratório está ligada à procura por cursos de Medicina”, afirma.
O pesquisador avalia, entretanto, que as crises política e bancária podem comprometer a confiança de quem pretende se estabelecer no país. Ele destaca que a facilidade para abrir contas e movimentar dinheiro no Ueno Bank ajudou a atrair brasileiros, muitos dos quais agora enfrentam dificuldades para acessar seus recursos.
“Evidentemente, a crise pode frear o aumento da migração de brasileiros para o Paraguai. Se não existe estabilidade política, social ou econômica, as pessoas não vão migrar para um país que apresenta essa situação”, diz. Segundo ele, a continuidade do fluxo dependerá da capacidade do governo de estabilizar o país.
Dificuldades
A suspensão das operações do Ueno Bank afetou brasileiros que utilizavam a instituição para movimentar dinheiro e pagar despesas cotidianas.
É o caso da empreendedora Jhenifer Vogado, filha de brasileiros e moradora de Santa Rosa del Monday, a cerca de 57 quilômetros de Foz do Iguaçu (PR). Sem acesso à conta, ela precisou recorrer à ajuda de familiares para comprar medicamentos para o filho de 3 anos, que está doente.
Ela e o marido utilizavam o banco como principal instituição financeira havia cerca de quatro anos.
“A gente dependia dele para tudo: pagar mercado, internet, luz, fazer transferência. Dormimos com o salário que recebemos no começo do mês e acordamos no outro dia sem nada do dinheiro”, relata.
Jhenifer afirma que soube da suspensão pelas redes sociais e não recebeu comunicação oficial naquele momento. A situação provocou preocupação, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por outras famílias que dependiam dos recursos para alimentação e medicamentos.
Outra brasileira afetada é Camila Brito, natural de Foz do Iguaçu e estudante de Medicina em Assunção. Com valores e investimentos bloqueados, ela precisou renegociar o aluguel e outras despesas.
“É uma situação muito complicada acordar e não ter acesso nenhum ao seu próprio dinheiro, ainda mais no dia seguinte ao tradicional dia de pagamento dos salários. As pessoas, inclusive nós, haviam acabado de receber e não tinham como cumprir suas obrigações financeiras”, afirma.
Segundo Camila, muitos credores têm permitido a renegociação das despesas. “O que resta agora é esperar que os valores sejam desbloqueados o mais rápido possível.”
Até o momento, não há levantamento oficial sobre quantos brasileiros foram afetados pela suspensão das operações do Ueno Bank. (Com informações do portal g1)