Domingo, 08 de Fevereiro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de fevereiro de 2026
Nos últimos cinco anos, o interesse por “melatonina” no Google saltou 150%, chegou ao maior patamar já registrado e ultrapassou a procura até mesmo por “clonazepam”, princípio ativo do rivotril, no Brasil. Segundo um levantamento exclusivo do Google Trends, as buscas sobre o suplemento cresceram acima da média mundial no mesmo período, que foi de 70%, e o país é o 7º que mais tem interesse sobre o assunto.
Paralelamente, a procura por “higiene do sono”, um conjunto de práticas que prometem auxiliar o indivíduo a dormir, também subiu 220%, novamente acima do aumento de 80% a nível global. Os números revelam um cenário em que mais e mais brasileiros sofrem com queixas na hora de descansar e buscam medidas para ajudar a cair no sono.
A Associação Brasileira do Sono (ABS) estima que duas a cada três pessoas no país têm alguma dificuldade do tipo. Dados do Episono, pesquisa realizada na capital paulista pelo Instituto de Sono, revelam uma prevalência de 15% de diagnóstico formal de insônia crônica, quando as queixas ocorrem ao menos três vezes na semana e perduram por pelo menos três meses.
Além disso, é alto o número de brasileiros que recorrem a remédios. De acordo com um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, com base em dados da última Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, 8,5% da população, o equivalente a cerca de 18 milhões de pessoas, usam medicamentos para dormir.
A melatonina, embora não seja um remédio, é comumente buscada como uma ferramenta para ajudar o sono. Entre as perguntas mais buscadas no Google nos últimos 12 meses sobre o suplemento, estão “para que serve”, “o que é” e “criança pode tomar”.
O que é
“A melatonina é um neurohormônio produzido no sistema nervoso central por uma glândula chamada pineal. Seu pico ocorre no período noturno e, ao longo do dia, ela fica baixa. Isso porque ela tem uma relação com o nosso ciclo de vigília-sono”, explica a neurologista Dalva Poyares, professora de Medicina do Sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A substância também é encontrada em alguns alimentos, como frutas e carnes, e, desde 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a venda de melatonina sintética como suplemento alimentar, limitando o consumo diário a 0,21 mg.
No corpo, a melatonina tem um papel importante na regulação do ciclo circadiano. No entanto, os especialistas reforçam que não existe hoje indicação do consumo de melatonina como tratamento da insônia ou para ajudar a dormir.
“Não temos estudos que demonstrem um benefício da melatonina para insônia. Ela não é um indutor do sono, ela não ajuda a iniciar e a manter o sono”, diz Dalva.
Lucio Huebra, neurologista e médico do sono do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, lembra que as diretrizes tanto brasileiras, como internacionais, não recomendam essa indicação.
“Para o tratamento da insônia são indicadas medidas comportamentais, higiene do sono, terapia psicológica como a terapia cognitivo comportamental para insônia e em casos refratários o uso de indutores do sono por períodos curtos, na menor dose possível”, explica Huebra.
Indicação
Existem alguns cenários em que a melatonina pode ser indicada, conta o endocrinologista Márcio Mancini, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Ele cita como exemplo os casos de mudança de fuso horário. “Porque o organismo se acostuma a produzir melatonina em determinado horário, então a suplementação ajudaria a se adaptar ao novo fuso”.
Outros casos em que pode haver recomendação são indivíduos com distúrbio do ritmo circadiano, algumas pessoas com transtorno do espectro autismo (TEA), casos de cegueira e insensibilidade à luz e de sonambulismo e parassonias.
Contraindicações
O suplemento não é indicado para menores de 19 anos, ou seja, a melatonina não deve ser consumida por crianças no Brasil. Além disso, o suplemento é contraindicado para gestantes, lactantes e pessoas envolvidas em atividades que requerem atenção constante.
No geral, a suplementação com melatonina costuma ser bem tolerada, com os estudos mostrando baixos níveis de toxicidade e sem evidência de dependência, tolerância ou abstinência. No entanto, alguns efeitos adversos podem ocorrer, geralmente leves e transitórios, como sonolência matinal, tontura, dor de cabeça e náusea.
Recentemente, pesquisadores apresentaram um estudo nas Sessões Científicas da Associação Americana do Coração que analisou dados de 130,8 mil adultos diagnosticados com insônia crônica ao longo de 5 anos n, etre os que tomavam melatonina a longo prazo, por ao menos um ano, foi observado um risco de problemas cardíacos até 3,5 vezes maior.