Quarta-feira, 04 de Março de 2026

Home Saúde Remédio desencadeou vício em jogo e sexo em centenas de pessoas

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Emma não conseguia entender por que havia desenvolvido subitamente um problema com jogos de azar — até ler uma reportagem recente da BBC News. Ao longo do último ano, ela perdeu dezenas de milhares de libras, mas nunca imaginou que seu medicamento pudesse ser o responsável.

Emma é uma das mais de 250 pessoas do Reino Unido que entraram em contato com a BBC relatando vícios, de jogos de azar a sexo e compras, causados por uma família de medicamentos prescritos para distúrbios do movimento.

Entre os que procuraram a reportagem estão pessoas com cargos de responsabilidade — um policial, enfermeiros, médicos e até um diretor de risco de um banco.

Quase um ano após a BBC ter noticiado pela primeira vez as consequências devastadoras desses comportamentos impulsivos, muitos pacientes dizem que médicos ainda deixam de alertá-los adequadamente sobre os efeitos colaterais dos agonistas da dopamina.

Apesar de esses medicamentos terem sido recentemente rebaixados como tratamento de primeira linha para a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), não houve impacto nos níveis de prescrição por clínicos gerais na Inglaterra.

No mês passado, o presidente do Comitê de Saúde da Câmara dos Comuns pediu à agência reguladora de medicamentos do Reino Unido que revisasse os alertas sobre esses efeitos colaterais, e o governo classificou nossas descobertas mais recentes como “extremamente preocupantes”.

Como muitas mulheres, Emma desenvolveu pela primeira vez a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI), que se acredita estar relacionada aos níveis de ferro, durante a gravidez.

Depois que seus sintomas pioraram nos anos seguintes, ela recebeu prescrição de Ropinirole, um medicamento fabricado pela empresa farmacêutica britânica GSK.

Emma afirma que passou a jogar compulsivamente e a comprar coisas supérfluas, sentindo como se houvesse algo a controlando.

Ela diz que só descobriu a relação com seu medicamento quando o marido pesquisou sobre os remédios que ela tomava e encontrou uma de nossas reportagens. “Eu li e pensei: ‘Meu Deus, sou eu’”, conta.

Ao marcar uma consulta em sua clínica de atenção primária, Emma conta que precisou preencher um formulário on-line listando todos os medicamentos que tomava.

Mas, apesar de informar que havia desenvolvido um vício em jogos de azar — e que estava tomando Ropinirole — Emma diz que seu médico nunca associou seu comportamento aos efeitos colaterais conhecidos do medicamento.

Ela continuou jogando e, mais tarde, após ler nossas reportagens, solicitou a troca do remédio. Afirma ter perdido pelo menos £ 30 mil.

“Arruinou minha vida — vamos ficar endividados por Deus sabe quanto tempo para pagar isso”, diz.

O medicamento atua aumentando a atividade da dopamina. Ele faz parte de uma família de drogas que, além da GSK, também foi desenvolvida por outros dois fabricantes no Reino Unido.

A dopamina é uma substância química que ajuda a regular o movimento, mas também desempenha papel central na motivação e no sistema de recompensa — que pode ser superestimulado por esses medicamentos.

Pessoas em todo o Reino Unido relataram à BBC como efeitos colaterais relacionados a comportamentos impulsivos levaram a dívidas enormes, casamentos desfeitos, envolvimento em crimes e suicídio.

Também há relatos de pacientes que passaram a comer compulsivamente, praticar cross-dressing e fazer investimentos imprudentes — e de outros que buscaram relações homossexuais pela primeira vez.

Outro tema recorrente é o de mulheres mais velhas que relatam que seus maridos, após décadas de casamento, tornaram-se sexualmente coercitivos.

Em geral, os usuários não tinham histórico desse tipo de comportamento e nem eles nem suas famílias perceberam que isso poderia ser causado pelo medicamento.

Como cerca de um em cada seis pacientes com Parkinson que usam esses medicamentos é afetado por algum tipo de comportamento impulsivo, os efeitos colaterais seriam classificados como “muito comuns”.

No entanto, essa prevalência não é informada nas bulas, que também vêm sendo criticadas repetidamente por descreverem os comportamentos impulsivos de forma genérica — sem detalhar ações específicas a que podem levar, como vício em pornografia.

No mês passado, a BBC publicou a história de uma família em que pai e filho tiraram a própria vida após o comportamento impulsivo do pai levá-lo a roubar mais de R$ 4 milhões de seus clientes para pagar por sexo e antiguidades.

Desde então, mais homens entraram em contato dizendo reconhecer o comportamento descrito como o seu próprio e afirmando que estão atualmente vivenciando esse tipo de hipersexualidade.

Michael, cujo nome foi alterado, passou recentemente a procurar profissionais do sexo após receber prescrição desses medicamentos para a Síndrome das Pernas Inquietas.

“Acho que estou obcecado por sexo”, diz ele, acrescentando que já se relacionou com cerca de 20 homens e mulheres, apesar de ser casado. Antes, afirma, nunca traiu a esposa nem teve encontros homossexuais.

A GSK disse à BBC que o medicamento foi amplamente testado, continua aprovado por reguladores em todo o mundo e que os efeitos colaterais estão claramente descritos. A empresa afirmou que não patrocinou nem desenhou o estudo de 2005.

Em nota, a MHRA, agência reguladora de medicamentos e produtos de saúde do Reino Unido, afirmou que os alertas só apareceram em 2007 porque tal decisão exige a análise de todas as evidências disponíveis — e que as bulas não podem incluir uma lista “exaustiva” de comportamentos, já que muitos são “individualizados”. As informações são da BBC News.

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