Quinta-feira, 02 de Dezembro de 2021

Home em foco Rússia supera pela primeira vez mil mortes diárias pela Covid-19

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A Rússia superou neste sábado (16) pela primeira vez desde o início da pandemia as 1.000 mortes por covid-19 em 24 horas, em um momento em que a vacinação se encontra estagnada e não há restrições sanitárias. Segundo o balanço oficial do governo, foram registradas 1.002 mortes e 33.208 novos casos, dois recordes pelo terceiro dia consecutivo.

A nova onda de casos chegou com apenas 31% dos russos completamente vacinados até este sábado, segundo o site Gogov, que coleta os dados de covid-19 das regiões.

A ausência de restrições rígidas permitiu que o vírus se propague descontroladamente, embora várias regiões tenham restabelecido a obrigação de passaportes sanitários com códigos QR para acessar lugares públicos.

O governo russo descartou aplicar restrições importantes, apesar de classificar a taxa de vacinação do país como “inaceitavelmente” baixa. O governo comunicou que as autoridades devem garantir que “a economia siga funcionando” e que o sistema de saúde da Rússia está preparado para receber o crescente número de pacientes, insistindo que não está “sobrecarregado”. As autoridades culparam a população russa pelo aumento da epidemia.

O ministro da Saúde, Mikhaíl Murashko, criticou nesta semana seu “comportamento”, enquanto o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que foi feito todo o possível para dar aos russos a oportunidade de “salvar suas vidas tomando a vacina”.

A Rússia desenvolveu sua própria vacina contra a covid-19, a Sputnik V, e o Estado impulsionou uma campanha de vacinação que teve um eco limitado diante de uma população cética. As pesquisas de opinião independentes mostram que mais da metade dos russos não planeja se vacinar.

O país registrou até este sábado 222.315 mortes por covid-19, o número mais alto na Europa, mas as autoridades são acusadas de subestimarem os números. A partir de uma definição mais ampla de mortalidade relacionada ao vírus, a agência de estatísticas Rosstat afirmou que até o final de agosto mais de 400.000 pessoas na Rússia morreram por causa da pandemia.

Desconfiança

“Muitos não se vacinaram não porque sejam antivacinas, mas porque decidiram esperar”, avalia a antropóloga Alexandra Arkhipova, pesquisadora do Instituto de Ciências Sociais da Academia Presidencial Russa de Economia Nacional e Administração Pública.

Em entrevista ao serviço russo da BBC, Arkhipova afirma que a decisão teria como pano de fundo uma desconfiança em relação à Medicina e à elite política do país, além de conselhos vindos dos médicos “de família”.

“No período soviético, os pais eram obrigados a vacinar os filhos. A recusa acabava sendo uma forma de protesto e, por isso, em algumas famílias de intelectuais, por exemplo, esse tipo de comportamento era inclusive estimulado”, acrescenta.

“Em paralelo, muita gente diz que não está na lista para se vacinar porque não confia na forma como a Sputnik V foi desenvolvida. As pessoas se sentem muito incomodadas com a falta de informações sobre como a vacina foi feita, seus efeitos colaterais, quantas pessoas ficaram doentes, quantas tiveram formas graves, quantas foram hospitalizadas, etc”, completa Arkhipova.

A antropóloga diz que, ainda que muitos russos não confiem na medicina, costumam ouvir os médicos conhecidos, mas isto, paradoxalmente, não contribuiu para impulsionar a campanha de vacinação. “Muitas pessoas foram dissuadidas pelos chamados ‘médicos de família’”, destaca.

Na Rússia, segundo ela, os protocolos de vacinação para pessoas com diferentes doenças pré-existentes não foram bem desenvolvidos, o que dificulta o trabalho dos profissionais de saúde.

“Acaba sendo intimidador para um médico assumir a responsabilidade de recomendar a vacinação. Muitas vezes eles não sabem exatamente como a imunização pode afetar uma doença pré-existente que o paciente tenha. Assim, acaba sendo mais fácil dizer: ‘não se vacine’.”

A pesquisadora pontua ainda que, nas entrevistas conduzidas em seus estudos, é elevado o número de pessoas que dizem desconfiar de médicos e profissionais com grande visibilidade porque eles podem mentir para a população sem que enfrentem nenhuma consequência por seus atos.

“Mentir não é algo normalmente punido na Rússia. Pela mesma razão, algumas pessoas confiam mais nas vacinas importadas porque acreditam que, caso os fabricantes da Pfizer mintam, por exemplo, vão sofrer as devidas repercussões.”
Uma outra razão seria ainda um desconhecimento de muitos russos sobre a própria biologia.

“Muitas pessoas não entendem o que é um vírus, como ele entra no corpo, o que são anticorpos. Por isso, muita gente tem uma capacidade crítica reduzida para reagir a rumores”, diz a antropóloga.

Na Rússia, assim como em muitos outros países, as informações falsas e a desinformação sobre as vacinas têm sido abundantes.

Até julho deste ano, a pesquisadora tinha reunido em uma base de dados 314 fake news diferentes sobre o coronavírus, das quais 83 estavam relacionadas às vacinas e haviam sido compartilhadas 2,6 milhões de vezes nas redes sociais.

Esse é outro fator que dificulta a tarefa de persuadir os russos sobre a importância de garantir a imunização contra a Covid-19.

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