Sábado, 18 de Maio de 2024

Home Economia Saiba como a alta do dólar vai afetar os preços de comida, gasolina e passagens aéreas

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O dólar não para de subir. Nessa terça-feira, a moeda fechou cotada a R$ 5,26, com alta de 1,64%, o maior valor desde março do ano passado. Dentre os motivos estão a escalada de tensão entre Irã e Israel, as mudanças no quadro fiscal do Brasil e a economia ainda aquecida nos Estados Unidos, que atrasa cada vez mais o início do ciclo de corte de juros por lá.

Segundo especialistas, a tendência é que a divisa americana permaneça em patamar elevado, o que pode ter impacto na economia real, desde o preço dos alimentos até o custo das passagens aéreas.

Para Vinicius Lecuona, especialista em investimento internacional da Ável, será difícil ver o dólar voltar a ficar abaixo de R$ 5 este ano. Com mais incertezas externas, os investidores tendem a proteger seu patrimônio buscando uma moeda forte, ou seja, comprando dólar.

Combustíveis e passagens

No fim de semana, o Irã atacou Israel com drones e mísseis, numa espécie de resposta ao bombardeio ao consulado do Irã em Damasco, na Síria. Israel, que não assumiu nem negou a autoria da incursão, disse que planeja revidar. Autoridades do mundo todo ficaram alarmadas, com medo de que a guerra entre os países ganhe escala, envolva outras nações e ainda afete o comércio de petróleo. O preço do barril de Brent, no entanto, permanece estável, a US$ 90,02.

Tanto a alta da commodity, quanto a do preço do dólar podem encarecer o preço dos combustíveis no Brasil e, por consequência, elevar o custo do frete e dos produtos transportados pelas rodovias do país.

O valor das passagens aéreas também poderia ficar mais alto nesse cenário, já que as companhias de aviação teriam custos maiores. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), cerca de 60% das despesas das aéreas é de itens dolarizados, o que inclui gastos com combustíveis, manutenção, entre outros.

Pedro Afonso Gomes, presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo (Corecon-SP), acrescenta que diversos alimentos disponíveis nas gôndolas podem pesar mais no bolso. O azeite, por exemplo, tende a ficar ainda mais caro por ser importado.

Já a carne pode ter custo maior porque o gado é alimentado com uma ração produzida a partir de soja e milho. Esses insumos, assim como café e açúcar, têm suas cotações internacionais definidas por bolsas de commodities:

Fábio Queiróz, presidente da Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), diz que não só os preços de alguns alimentos podem subir, mas também o custo das embalagens para a indústria. Para evitar a alta nas etiquetas do mercado, conta que a estratégia tem sido negociar com fornecedores.

Por enquanto, porém, a Petrobras se mantém em compasso de espera para entender o cenário mundial antes de fazer qualquer reajuste. Na segunda-feira, a defasagem do preço da gasolina no País em relação à cotação internacional estava em torno de 19%, de acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Impacto

Carla Beni, economista e professora de MBAs da FGV, ratifica que o impacto na vida do consumidor depende de uma alta persistente do dólar. É preciso que a moeda permaneça em patamar elevado por alguns meses para que isso afete o preço na ponta final.

Ela explica que a alta só é sentida quando as empresas têm que refazer os estoques de produtos e acabam pagando mais caro. O custo é repassado para o cliente.

“Precisamos olhar o IPCA para ver o impacto no consumo. As transmissões da variação do câmbio não são automáticas”, afirma.

O Boletim Focus divulgado nessa terça apontou uma queda das projeções da inflação de 2024 de 3,76% para 3,71%. Em contrapartida, elevou a previsão do dólar para o fim do ano de R$ 4,95 para R$ 4,97.

Para Luciano Costa, economista-chefe da Monte Bravo, o dólar deve se manter em patamar elevado, por volta de R$ 5,10, pelo menos até julho, quando prevê o início do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos.

Economia americana

Costa aponta que a mudança na meta fiscal no Brasil ajuda a aumentar o cenário de incertezas, afugentando investidores estrangeiros.

O governo propôs que o resultado fiscal de 2025 seja zero, o que significa que as despesas serão iguais às receitas, ao invés de um superávit para o ano que vem. Em resposta, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reagiu afirmando que uma “âncora fiscal menos transparente aumenta o custo da política monetária”.

Mas a mudança na política fiscal não deve afetar o mercado por mais dias, avalia Costa. O que preocupa mais é quando os Estados Unidos começarão a cortar juros. Os dados do varejo americano vieram acima do esperado, indicando que a economia segue aquecida.

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