Terça-feira, 21 de Julho de 2026

Home Colunistas Saúde sexual: o exame de rotina que poucos fazem

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Você marca consulta com o dentista antes que a dor apareça. Faz exames do coração porque sabe que a prevenção salva vidas. Leva o carro para revisão mesmo quando ele parece funcionar perfeitamente. Mas me responda, com sinceridade: quando foi a última vez que você fez um check-up da sua saúde sexual?

O silêncio que surgiu agora talvez seja a resposta. Curiosamente, ainda existe quem cuide do corpo inteiro, mas trate a vida íntima como um assunto que deve permanecer escondido na última gaveta da casa. Como se o desejo não pudesse adoecer. Como se a lubrificação, a ereção, a dor durante a relação, a perda da libido, a dificuldade de atingir o orgasmo ou as infecções recorrentes fossem apenas “coisas da idade” ou uma fase do casamento.

Após anos de atendimento ouvindo histórias que quase nunca chegam às rodas de conversa, aprendi que poucas pessoas adoecem apenas no corpo. A maioria adoece também na vergonha.

E vergonha não faz diagnóstico. A Organização Mundial da Saúde define saúde sexual como um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade. Em outras palavras, estamos falando de qualidade de vida, autoestima e saúde integral.

Ainda assim, muitos casais passam anos convivendo com dificuldades que poderiam ser tratadas precocemente. A mulher acredita que sentir dor é normal depois dos cinquenta. O homem interpreta qualquer alteração na ereção como uma sentença contra sua masculinidade. Ambos sofrem em silêncio, evitam o assunto, afastam-se emocionalmente e, sem perceber, deixam que a intimidade vá embora sem fazer barulho.

É curioso como normalizamos fazer exames de sangue todos os anos, mas consideramos exagero conversar sobre sexualidade com um profissional capacitado.

Conheço gente que troca a película do celular ao primeiro arranhão, leva o carro para revisão antes da quilometragem recomendada e pesquisa durante horas qual vitamina está faltando no organismo. Mas trava diante da simples ideia de dizer ao médico que sua vida íntima mudou.

Assim como acompanhamos a pressão arterial, o colesterol ou a glicemia, a vida íntima também merece acompanhamento periódico. Os profissionais da saúde física e mental formam uma rede de cuidado que existe justamente para prevenir problemas antes que eles se transformem em sofrimento.

A ciência confirma aquilo que muitos casais descobrem na prática: uma vida sexual saudável melhora o humor, fortalece vínculos, favorece o sono, reduz o estresse e até faz bem ao coração. Mas talvez o maior benefício seja outro: a intimidade preservada costuma refletir uma saúde emocional mais equilibrada. Nem toda dificuldade sexual nasce no corpo.

Muitas começam em ressentimentos silenciosos, na autoestima ferida, na comunicação interrompida ou numa rotina que deixou de cultivar o afeto.

É por isso que nenhum exame substitui uma boa conversa, e nenhuma boa conversa elimina a importância dos exames. As duas coisas caminham de mãos dadas.

Outro mito que merece aposentadoria é imaginar que a sexualidade termina junto com a juventude. Nunca tivemos tantas pessoas vivendo mais, com melhor autonomia e mantendo uma vida sexual ativa depois dos sessenta, setenta e até oitenta anos. A terceira idade descobriu algo precioso: o prazer não possui data de validade. O que muda é a forma de vivê-lo.

Aliás, talvez os cabelos embranqueçam justamente para ensinar que a intimidade fica mais bonita quando deixa de ser uma corrida e passa a ser um encontro.

É claro que o envelhecimento traz mudanças hormonais, fisiológicas e emocionais. Mulheres podem enfrentar a menopausa com alterações importantes na lubrificação e na elasticidade vaginal. Homens podem perceber mudanças na resposta erétil. Nada disso, porém, significa o fim da vida sexual. Significa apenas que o corpo também merece acompanhamento, orientação e cuidado.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantos anos você tem, mas quanto da sua vida ainda deseja viver por inteiro. Porque saúde sexual nunca foi apenas sobre sexo. É sobre dignidade, afeto, autoestima, parceria e qualidade de vida.

Afinal, ninguém espera a dor de dente para abandonar a escova, nem ignora o coração até sentir falta de ar. Talvez esteja na hora de incluir a saúde sexual na lista dos exames de rotina. O corpo aprende a conviver com muitas dores. Mas o silêncio, quando ocupa o lugar do cuidado, costuma adoecer muito mais do que qualquer diagnóstico.

Até a próxima consulta.

* Tatiane Dias Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante

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