Quinta-feira, 15 de Outubro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 14 de outubro de 2026
Na disputa do segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o mercado demonstra preferência pelo candidato de direita, principalmente pela expectativa de ajuste fiscal e redução dos juros. No entanto, representantes da indústria apontam vantagens e riscos nos dois cenários, com preocupações sobre políticas industriais e relações comerciais internacionais.
Segundo executivos, uma eventual vitória de Flávio pode favorecer a aproximação com os Estados Unidos, as privatizações e medidas de estímulo ao empresariado. Por outro lado, há receio de descontinuidade de programas estratégicos e de tensões comerciais com a China.
Para Julia Thomson, analista da Eurasia, a expectativa de maior credibilidade fiscal sob Flávio poderia acelerar a queda dos juros, beneficiando a indústria. Entretanto, uma abertura econômica mais ampla pode prejudicar setores como máquinas, automóveis, químicos e biocombustíveis, especialmente o etanol.
* Políticas industriais e incentivos
Em segmentos considerados estratégicos, como a mineração de terras raras, executivos temem que uma mudança de governo interrompa iniciativas de financiamento, incentivos fiscais e grupos de trabalho criados na atual gestão. Outros avaliam que um governo Flávio poderia reduzir contrapartidas e acelerar investimentos.
No setor de biocombustíveis, há preocupação com uma possível revisão do Renovabio, política nacional de incentivo aos combustíveis renováveis. Apesar das críticas à redução das metas de descarbonização durante o governo Lula, representantes do segmento consideram que uma eventual mudança de gestão aumentaria as incertezas.
Segundo Thomson, os dois candidatos reconhecem a importância de setores estratégicos, mas adotam abordagens diferentes. Lula privilegia subsídios e crédito, enquanto Flávio defende redução de impostos e flexibilização regulatória.
A indústria automotiva é apontada como uma das mais incertas. A expectativa é que um governo de direita ofereça menos subsídios, seguindo uma orientação econômica semelhante à do ex-ministro Paulo Guedes. A indústria química também teme mudanças, lembrando a tentativa de encerramento do Regime Especial da Indústria Química (Reiq) durante o governo Bolsonaro.
Relações comerciais
A política externa é outro ponto de preocupação. Fontes do setor industrial avaliam que Flávio poderia melhorar as relações com os Estados Unidos e ampliar negociações comerciais, enquanto Lula tenderia a manter uma relação mais difícil com o governo americano.
Entretanto, a aproximação com Washington gera dúvidas sobre possíveis impactos nas relações com a China, principal parceiro comercial do Brasil. No agronegócio, o professor do Insper Marcos Jank defende equilíbrio entre as duas potências, já que os Estados Unidos são fornecedores importantes de tecnologia, enquanto a China é um mercado fundamental para as exportações brasileiras.
Jank espera que Flávio recupere o diálogo com os americanos sem privilegiá-los em detrimento dos chineses. Para Thomson, a força do agronegócio na base bolsonarista deve evitar uma ruptura radical com Pequim, embora possam surgir tensões e o BRICS perca espaço na política externa.
Infraestrutura e contas públicas
Na infraestrutura, a expectativa é de continuidade das concessões independentemente do vencedor. Um governo Flávio, porém, poderia retomar privatizações e impulsionar projetos como a hidrovia do Tapajós e a Ferrogrão. Parte do setor teme, em contrapartida, uma redução dos investimentos públicos e mudanças na atuação do BNDES.
A política fiscal é vista como um dos principais pontos favoráveis a Flávio. Jank destaca que cortes de gastos poderiam demonstrar disciplina fiscal e abrir espaço para a redução dos juros.
Thomson, contudo, ressalta que as propostas ainda carecem de detalhamento. Embora haja promessas de cortes de R$ 200 bilhões, agentes do mercado duvidam que o valor seja alcançado. Ainda assim, a expectativa permanece positiva caso haja redução de despesas, mesmo em escala menor.
Expectativas
No mercado imobiliário, empresários demonstram otimismo com uma possível vitória da direita e esperam que o Minha Casa, Minha Vida seja mantido. O setor considera que há alinhamento entre suas demandas e a equipe de Flávio, além de sinais de compromisso com a continuidade do programa habitacional.
De forma geral, o setor produtivo vê oportunidades em uma eventual gestão de Flávio Bolsonaro, sobretudo na área econômica, mas mantém dúvidas sobre a continuidade de incentivos industriais, os investimentos públicos e o equilíbrio das relações comerciais internacionais. (Com informações do Valor Econômico)