Domingo, 03 de Março de 2024

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“É melhor ser feliz do que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe”: já dizia Vinícius de Moraes… então por que em algum momento da história da humanidade estipulou-se a mentira coletiva de que a alegria não é sinônimo de produtividade? 

Observe como são os ambientes de trabalho conservadores: impera a “cultura do estresse”. O bacana é estar absolutamente estressado, sequer ter tempo pra dar o bom-dia aos colegas. Prazos, agendamentos, problemas com clientes, aquela correria para responder rápido e entregar resultados. Trabalho, trabalho, trabalho. Reconhece esse ambiente? 

É um quadro clássico da ideia de sucesso que se criou a partir da década de 1980. Exatamente a década em que fui criança e em que absorvi, portanto, boa parte dos conceitos que forjaram o meu caráter. Junte a isso um agravante: sou mulher e fui criada não só para casar por amor, mas também para saber me virar. Que orgulho de ser o que sou, mas a minha geração de mulheres é absolutamente cansada. 

A expressão “trabalhar duro” foi introjetada nas minhas células e formou algo indissociável ao meu ser. Eu trabalhei muito, mas muito mesmo. O que é mais interessante é que eu trabalhava arduamente mesmo não gostando do que eu fazia. Era apenas uma pessoa ligada no piloto automático da vida, cumprindo protocolos estabelecidos, sobre os quais eu sequer pensava; seguindo o script da “self-made woman”, que eu julgava querer ser; e acumulando tarefas e responsabilidades de mãe, esposa e, claro, dos padrões sociais impostos pelos outros (que eu pensava ter que atingir). 

Uma das grandes “verdades absolutas” que nos fizeram aceitar é a de que o trabalho encobre o homem. Ok, mas a gente assimilou a frase incompleta. O trabalho só enobrece o homem quando feito com propósito. Qualquer propósito: desde tornar o mundo melhor a ser famoso, desde ficar rico a “apenas” poder expressar a sua arte. Aí, sim, ele enobrece. Caso contrário, ele seguirá sendo necessário, mas apenas te fará conseguir pagar os boletos do mês. E olhe lá. 

“Poxa, Ali, então você foi infeliz todo esse tempo, até conseguir fazer algo que você gosta? Que triste!”. Calma, gente. Minha vida jamais foi um drama (salvo, claro, quando eu era adolescente e os namorados acabavam a relação – daí parecia que o mundo ia acabar, mas isso já é outra história. Deixemos para a próxima coluna). É claro que eu era feliz, sim. Tive grandes realizações e momentos únicos de intensa satisfação, mas eu ainda não conhecia a plenitude. 

O dicionário vai te dizer que “plenitude” é o estado do que é inteiro. Sem dúvida, se aplica a alguém, portanto, que tem todas as áreas da sua vida completas, certo?

Quase certo. Porque o próprio conceito de completude é absolutamente subjetivo. O que é bom para mim pode não ser bom para você. Eu posso encontrar na maternidade toda a minha realização. Ou não. Há quem não queira filhos. Há quem não queira dividir a vida com um marido ou com uma esposa. Há quem não acredite na monogamia. Há quem pense, até, que legal mesmo é ser um ermitão e viver isolado no meio do mato. Ora bolas, quem está certo, afinal?

Todos, desde que estejam vivendo a sua verdade e, talvez o mais importante, mantendo o que há de mais lindo na essência humana: a alegria de viver.

Demorei anos para entender que a minha alegria de viver não é demérito algum à minha capacidade profissional. Pelo contrário, foi ela que me alçou a patamares que jamais imaginei. O brilho nos olhos, o frio no estômago, a curiosidade em experimentar o novo, a satisfação das sensações, o sorriso genuíno diante de cada descoberta. O entusiasmo diante da vida. 

Se você pensar bem, é quase como manter sempre viva a criança que existe dentro de você – e que deixamos de lado, no decorrer do caminho, para encarar o personagem que nos impuseram: o estressado ou o sério, que usa da ironia, da raiva, do despeito ou da arrogância para extravasar, na verdade, a tristeza por ter deixado de ser quem é. 

Pois eu sigo com o poeta: 20 Além de ser melhor, te leva muito mais longe. Seja lá qual for o longe para onde você queira ir. 

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