Segunda-feira, 16 de Maio de 2022

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Qualquer um que tenha vivido durante o período da Guerra Fria saberá dizer da incômoda sensação de insegurança que a possibilidade de um conflito nuclear suscitava. Geralmente pelas ondas do rádio, os jornalistas tratavam de conferir um tom sombrio e ameaçador, toda a vez que alguma declaração de Washington ou Moscou mencionava pontos divergentes entre as duas grandes potências da época. Em 1962, o episódio da instalação de mísseis nucleares em Cuba pela URSS colocou, pela primeira vez e de fato, o planeta diante da possibilidade de um armagedon nuclear. Felizmente, a diplomacia foi capaz de fazer os soviéticos recuarem e a situação foi contornada, não sem aguçar ainda mais o medo de que o impensável esteve a um passo de acontecer. Na verdade, a raiz da questão nuclear, para além dos seus aspectos práticos de gestão de contenciosos, é que o homem criou uma arma que não pode ser usada, não sem ameaçar a própria vida na terra, e essa petrificante espada sobre as nossas cabeças vem mais uma vez à tona.

O horror das bombas jogadas pelos americanos, com a justificativa de pôr fim ao conflito com os japoneses, sobre Hiroshima e Nagazaki, no estágio final da Segunda Grande Guerra, serviu para o seu propósito imediato, mas confrontou a humanidade com a terrível visão de que nada mais seria igual dali em diante. Durante o Pós-guerra, o número de países que passaram a dominar a tecnologia atômica aumentou e a capacidade de mútua destruição foi capaz de conter os espíritos mais belicosos, porém ao preço de deixar a humanidade sempre andando sobre o fio da navalha, na inquietante iminência do imponderável vir a acontecer. Mesmo com os diversos tratados de não proliferação e redução dos arsenais de armas nucleares assinados, a realidade é que as estimadas 14.000 ogivas atômicas existentes seriam capazes de aniquilar a existência humana no planeta.

Após a queda do Muro de Berlim e o fim do Império Soviético, um novo desenho geopolítico foi sendo gradativamente engendrado, redundando na combinação de uma OTAN com apetite crescente por aumentar a sua área de influência e uma Rússia incomodada com os antigos aliados mudando de lado, tão inconformada a ponto de atacar militarmente uma nação soberana. Essa agressão fere um dos pilares da nova ordem mundial pós 1945, colocando em questão toda a arquitetura da própria segurança planetária. Sem o respeito às fronteiras já delimitadas e reconhecidas, voltaremos ao tempo do expansionismo imperialista, no qual as guerras se justificavam por um apetite insaciável por conquistas, glória e poder ancorados na lei do mais forte, na força dos exércitos.

Além da inescapável questão da espada nuclear sobre as nossas cabeças, a preocupação também inevitável é de que modo administrar os pendores autoritários, e também inconsequentes, dos detentores do poder pelo mundo, particularmente daqueles países que possuem os maiores arsenais atômicos. A título de especulação, poderíamos imaginar qual seria a atitude de Hitler, sitiado em seu bunker, em Berlim, nos estertores da Segunda Grande Guerra, tendo já autorizado a política de “terra arrasada” e se valendo até de crianças para confrontar os soviéticos, caso dispusesse de uma bomba atômica. Ao que parece e justamente no tempo atual, a humanidade ainda não foi capaz de estabelecer uma arquitetura de gestão política que impeça que algum tipo de arroubo coloque o mundo em sobressalto. É que vemos agora, quando Putin, senhor absoluto dos destinos da Rússia, ameaça em alto e bom som que não hesitará em se valer de todas as suas possibilidades, tendo colocado em alerta máximo suas forças nucleares. Putin não é Hitler, nem mesmo as circunstâncias são semelhantes a ponto de conjecturar sobre o que advirá, mas é aflitivo saber que mais de 7.000 artefatos nucleares estão sob o comando de um único homem, cuja frieza e aparente destemor colocam novamente o mundo sob a ameaça da suprema insanidade. Sem que o autoritarismo populista seja extirpado e as democracias fortalecidas, o mundo não dormirá em paz.

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