Domingo, 26 de Julho de 2026

Home Economia Tarifaço de Trump expõe limites do Brasil para aumentar sua participação no comércio global

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Após empilhar bilhões em crédito com juros subsidiados nas três edições do programa Brasil Soberano, na reação ao tarifaço imposto por Donald Trump às exportações brasileiras para os EUA, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mira na conquista de novos mercados, mas a baixa inserção da economia brasileira no comércio exterior segue como um obstáculo difícil de transpor.

Mesmo com as sobretaxas americanas, as exportações totais do Brasil cresceram 3,3% ano passado, para US$ 348,3 bilhões, com mais vendas para a China e a União Europeia. O processo segue este ano — no primeiro semestre, as vendas avançaram 11,5% ante a primeira metade de 2025, com uma disparada de 22% nos valores embarcados para a China.

Apesar da expansão, o Brasil ficou no ano passado na posição 24 na lista dos maiores exportadores, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), destoando com o tamanho da economia brasileira. Países com Produto Interno Bruto (PIB) menor do que o nosso estão à frente nas exportações, como Holanda, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, México, Vietnã, Suíça e Polônia.

A situação é antiga. A economia brasileira é tida como relativamente fechada ao comércio exterior — para alguns economistas, há excesso de protecionismo à indústria nacional. Histórico defensor do multilateralismo representado pelas regras da OMC, o Brasil resiste a fechar acordos bilaterais, tem elevada carga tributária e ambiente de negócios hostil, dizem especialistas. E a guerra comercial global deflagrada por Trump em 2025 deixa tudo mais complicado.

Mudança de paradigma

Para Giorgio Rossi, gerente da Firjan Internacional, o comércio global vive uma mudança de paradigma com o tarifaço, reforçado este mês.

Na quinta-feira, a Casa Branca anunciou sobretaxas para 60 economias, por causa de uma investigação sobre uso de trabalho forçado nas cadeias de produção. O Brasil, que já tinha sido alvo de tarifa de 25% numa investigação específica na semana anterior, recebeu mais 12,5%, numa série de produtos.

A mudança de paradigma, segundo Rossi, se insere num processo de turbulências iniciado no primeiro governo Trump. Os primeiros passos foram o abandono da OMC — Washington vem boicotando a nomeação de árbitros para o Órgão de Apelação da entidade — e a guerra comercial com a China.

Depois, as turbulências foram agravadas pelo travamento das cadeias de produção na pandemia de Covid-19. Com a volta de Trump, vieram as sobretaxas.

— O tarifaço, claro, impõe um desafio ainda maior, porque muda as regras do jogo de uma maneira muito brusca e com impacto muito grande, como na investigação sobre trabalho forçado, que não envolve só o Brasil. Se isso prosperar, é uma mudança paradigmática, para pior, gigantesca, que aumenta a imprevisibilidade para todo mundo — diz Rossi.

A timidez dos acordos comerciais
Embora esteja finalizando acordos de livre-comércio — o tratado entre Mercosul e União Europeia (UE), firmado neste ano, é o destaque, mas tem também o acordo do bloco sul-americano com a Efta, formado por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein —, só uma pequena parte do comércio exterior do Brasil passa por eles.

Estudo de outubro do ano passado do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas (FGV Global Business) mostra que 15,7% do fluxo comercial (exportações mais importações) do país se dá com nações com as quais temos acordos.

Os tratados recentes elevarão a fatia para 34,7% do fluxo total, mas ainda em patamar muito distante de vários dos seus pares latino-americanos. Em países como Chile, Peru, México e Colômbia, a participação no fluxo supera 70%, ressalta o estudo.

Oportunidade de abertura vs. tradição protecionista
Há quem veja no tarifaço, junto da transição para uma economia de baixo carbono — energias renováveis, abundantes no Brasil, tornam-se chaves para uma série de atividades, da indústria siderúrgica a data centers —, uma oportunidade para a economia brasileira se abrir mais ao comércio exterior, mas economistas críticos sempre lembram da tradição protecionista de diversos governos e do empresariado nacional.

Ao criticar as medidas emergenciais de crédito subsidiado após o anúncio da terceira edição do Brasil Soberano na última quarta-feira, a economista Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting e colunista do GLOBO, disse que o país “falha em abertura comercial” e tem “um ambiente de negócios hostil”.

Dias após o anúncio do primeiro tarifaço, em abril de 2025, o economista Edmar Bacha, integrante da equipe que criou o Plano Real, afirmou que o Brasil poderia reduzir tarifas de importação sobre produtos americanos, negociando o aumento do comércio como um todo entre os dois países. Também poderia expandir o acordo com a UE e firmar algo com a China, “com todos os cuidados”. Mas, para Bacha, isso dificilmente ocorreria neste governo, de “vocação protecionista”. Com informações do portal O Globo.

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