Terça-feira, 22 de Setembro de 2026

Home Economia Em vídeo, suspeitos de fraudes no INSS discutem “volta aos negócios” e debatem como ocultar dinheiro e evitar bloqueio de bens

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Gravações de câmeras de segurança mostram empresários investigados pela participação no escândalo do INSS discutindo como esconder dinheiro e até a “volta aos negócios” um mês após serem alvo de buscas e apreensões da Polícia Federal (PF). O Estadão teve acesso a 30 minutos de imagens e áudios gravados em 22 de maio de 2025 por equipamentos instalados na casa de Anderson Cordeiro Vasconcelos, em Alphaville, Santana de Parnaíba (SP).

Vasconcelos foi alvo da Operação Sem Desconto, que investiga associações suspeitas de desviar R$ 6,2 bilhões diretamente da folha de pagamento de milhões de aposentados. A defesa afirmou desconhecer os vídeos e disse que o eventual vazamento das gravações constitui crime.

Vasconcelos é um dos chamados “golden boys”, grupo de empresários que presidiu quatro associações de aposentados. As entidades teriam faturado mais de R$ 700 milhões com descontos indevidos de beneficiários do INSS. Segundo a investigação, 29 carros, avaliados em R$ 28 milhões, foram apreendidos pela PF.

As gravações mostram Vasconcelos, de 38 anos, recebendo em casa Igor Dias Delecrode, de 28, outro integrante do grupo, e a namorada dele. Os registros são de 30 dias após a deflagração da Operação Sem Desconto. Na ocasião, os empresários foram alvo de buscas, mas não foram presos.

“Não quero mais”

Na conversa, Vasconcelos e Delecrode tratam as associações como empresas. Vasconcelos fala em abandonar sua participação: “Então, você não ficaria por um período? Talvez, por um período, para guardar uma grana, mas eu ia sair logo. E eu ia sair assim: gente, eu agradeço por tudo, mas, a partir de hoje, eu não quero mais ter nenhum tipo de vínculo com a associação. Obrigado, podem continuar recebendo. A minha parte, podem dividir. Não quero mais”.

Ele afirma ter sido questionado por Felipe Macedo Gomes, outro empresário investigado, se venderia sua parte, mas diz ter recusado. “Porque isso que a gente tá vivendo agora não tem dinheiro que pague. Eu preferia estar no meu apartamento na Itaici, mas sabendo que ninguém ia entrar na minha casa, que ninguém ia levar meu carro”, afirma.

Delecrode reclama dos bloqueios bancários: “Eu olho a conta. Será que entrou alguma coisa? Eu tenho dinheiro que tá (sic) aplicado. Aí não tem como tirar”. Em seguida, acrescenta: “Ter tem, seis meses, já pedi a baixa. Vou pôr tudo em dólar digital, tudo, tudo”.

Vasconcelos também fala sobre preservar um apartamento comprado com outros sócios: “Um apartamento que eu não quero perder é aquilo. Isso vai valer uma fortuna”.

Ele afirma que os negócios poderiam ser retomados: “Eu tento me manter positivo. A nossa visão sobre o nosso negócio é muito clara: ele vai voltar. Não sabemos quando e como, mas ele vai voltar”. Em seguida, diz que tentaria “salvar as minhas coisas ao máximo”.

“Golden boys”

Vasconcelos e Delecrode já presidiram a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (AASAP). Com Américo Monte Júnior e Felipe Macedo Gomes, são suspeitos de controlar entidades como Amar Brasil Clube de Benefícios, Master Prev e Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Andapp).

As investigações apontam que mais de R$ 100 milhões recebidos pelas entidades foram direcionados a empresas ligadas aos empresários, que também fizeram transferências para parentes.

Monte Júnior chegou a ser investigado após um ex-funcionário afirmar à polícia que sua filha ensinava empregados a falsificar assinaturas de idosos. O inquérito foi arquivado após o ex-funcionário declarar ter perdido o celular usado para registrar o material.

Delecrode é apontado como o “hacker” do grupo. Segundo a Controladoria-Geral da União (CGU), empresas ligadas a ele teriam participado de fraudes na biometria de aposentados. Fotografias de documentos de idosos chegariam clandestinamente ao empresário, e um sistema faria com que as imagens aparentassem ser registros de reconhecimento facial para assinaturas eletrônicas.

A CGU conseguiu cadastrar até Chico Bento, personagem de Mauricio de Sousa, como se fosse aposentado associado às entidades.

Defesa

Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que defendem Vasconcelos, Delecrode, Felipe Gomes e Monte Júnior, afirmaram que “desconhecem a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos em questão”.

“De todo modo, todos os seus bens se encontram bloqueados pela Justiça e o declarante segue, como sempre esteve, sob absoluta disposição das autoridades públicas”, afirmaram. (Com informações de O Estado de S. Paulo)

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