Sexta-feira, 26 de Junho de 2026

Home Variedades Terra do adeus: como Quebec, no Canadá, virou a capital mundial da morte assistida

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A parede revestida de madeira, cercada por superfícies em tons suaves de branco e azul, dava ao ambiente o aspecto de um hotel boutique. Em uma fotografia emoldurada acima de uma cafeteira, de um aparelho de som e de um telefone fixo, um pássaro solitário voava próximo a um iceberg.

Mas os sofás e poltronas estavam voltados não para a televisão fixada na parede, e sim para a cama hospitalar posicionada no centro da sala. Um grande recipiente plástico para descarte de seringas usadas dava mais uma pista sobre a finalidade do local: uma unidade destinada à morte assistida por médicos.

O quarto fazia parte de um novo centro de cuidados paliativos em Lanaudière, região de Quebec, onde 13 em cada 100 pessoas morrem por meio da morte assistida. Trata-se da maior taxa da província, que por sua vez lidera o mundo nesse tipo de procedimento, segundo relatórios dos governos do Canadá e de Quebec. Construído com recursos de doadores privados e administrado pelo governo provincial, o centro reflete dois fatores que impulsionaram Quebec ao topo desse ranking: a integração da morte assistida ao sistema público de saúde e o amplo apoio popular à prática.

Desde que Quebec se tornou pioneira na legalização da morte assistida no Canadá, em 2015, a medida provocou uma profunda transformação social na província francófona. Escolher morrer, nos próprios termos e sem sofrimento, passou a ser visto como um direito individual em uma sociedade que rejeitou os ensinamentos da Igreja Católica sobre a eutanásia, considerada um pecado grave.

— Este é um fenômeno social que cresceu exponencialmente — afirma o médico Louis Daigle, especialista em medicina de emergência em Lanaudière, que realizou 662 procedimentos de morte assistida desde 2017.

— Muitas pessoas passaram a idealizar essa forma de morrer, com dignidade, a ponto de eu acreditar que existe hoje a percepção de que há duas boas maneiras de morrer: de forma repentina ou por meio da morte assistida.

O crescimento acelerado — atualmente 8% de todas as mortes em Quebec ocorrem por morte assistida, contra 5% no Canadá como um todo — tem levantado questionamentos dentro e fora da província. Na França, onde o tema está em debate, opositores apontam Quebec como um alerta para o risco de uma expansão gradual e da normalização da prática.

A Comissão de Cuidados de Fim de Vida de Quebec, responsável pela supervisão da morte assistida na província, analisa cada caso após o falecimento para verificar se os procedimentos seguiram a legislação, explicou sua presidente, a médica Lucie Poitras.

Segundo ela, diferentemente do restante do Canadá, Quebec promoveu um amplo debate público oficial, envolvendo legisladores, profissionais da saúde, especialistas em ética, pacientes e grupos religiosos, durante vários anos antes da legalização da prática em 2014. Esse processo ajudou a construir um consenso social em torno da “importância da autonomia e do controle sobre a própria morte”.

— A taxa de Quebec é mais alta do que em qualquer outro lugar do mundo. Existe uma taxa ideal? Eu não acredito que exista. — afirma Poitras.

Ainda assim, até mesmo alguns defensores da medida acreditam que a província precisa refletir sobre os fatores que a transformaram em líder mundial em apenas uma década, superando países com legislação consolidada sobre o tema, como a Holanda.

Manuelle Légaré, conhecida produtora de televisão, criou recentemente a peça Club Sandwich Mayonnaise, inspirada na morte assistida de seu pai, o humorista Pierre Légaré. A obra provocou debates ao levantar questões delicadas: a morte assistida continua sendo um último recurso? A insuficiência dos serviços de saúde estaria incentivando as pessoas a recorrerem a ela? Quebec ampliou o acesso de forma rápida demais — inicialmente restrito a pacientes terminais e, mais recentemente, estendido a pessoas com doenças crônicas ou demência?

— Eu queria propor uma pausa para reflexão. Tivemos um grande debate antes da legalização, mas depois ela continuou evoluindo sem que muitas perguntas fossem feitas — diz Légaré, que apoia a prática.

Pesquisadores apontam diversas razões para a expansão. Em Quebec, desde o início, a prática foi apresentada como uma forma de morrer com dignidade, evitando termos como “eutanásia” ou “suicídio assistido”, usados em alguns países europeus. Além disso, apenas médicos e enfermeiros habilitados podem administrar o procedimento, enquanto em outras jurisdições cabe ao próprio paciente realizar o ato final.

— Nos lugares onde os médicos apenas prescrevem a medicação e os pacientes precisam administrá-la sozinhos, as taxas são muito menores — explica Isabelle Marcoux, professora da Universidade de Ottawa e pesquisadora da área.

A morte assistida é totalmente coberta pelo sistema público de saúde de Quebec. Além disso, médicos podem iniciar conversas com pacientes sobre essa possibilidade como uma opção de fim de vida, algo que não ocorre em locais como a Austrália e alguns estados norte-americanos, onde o tema deve partir do próprio paciente, observou a bioeticista Marie-Ève Bouthillier, da Universidade de Montreal. Com informações do portal O Globo.

 

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