Segunda-feira, 05 de Outubro de 2026

Home Colunistas Trem desgovernado – saia do vagão enquanto é tempo

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Existe um trem no qual ninguém gostaria de embarcar. Mas, quando menos se percebe, você já está lá dentro. Não existe bilheteria. Ninguém pergunta o destino. Também não há uma placa avisando: “Cuidado. A partir daqui você pode se perder”.

Os grandes desvios raramente começam grandes. Uma noite. Uma escolha. Uma má companhia. Uma tentativa de esquecer alguma coisa. Depois, vem outra noite. E mais outra.

O passageiro se acostuma à paisagem, depois à velocidade. E, quando percebe que alguma coisa está errada, o trem já ganhou força demais. Os piores destinos raramente aparecem escritos na passagem. O homem dormindo sob uma marquise. A mulher carregando em sacolas tudo o que ainda possui. O dependente vagando pelas madrugadas da vida. O pedinte diante do semáforo enquanto os motoristas fecham os vidros.

O sinal abre. Os carros seguem. E ela fica… De tanto vê-los, corremos o risco de esquecer que ninguém nasce naquela calçada. Aquele homem um dia foi criança. Correu pela casa. Talvez tenha soprado velinhas. Alguém segurou sua mão para atravessar a rua.

Antes de ser chamado de viciado, morador de rua, louco ou perdido, ele teve um nome. Compreender não é absolver. Existem escolhas, consequências e responsabilidades. É apenas lembrar que ainda estamos falando de um ser humano.

E ninguém sabe exatamente quanto peso consegue suportar até o dia em que a vida resolve testar sua estrutura. Pode ser um luto. Uma separação. Uma doença. A perda do trabalho. Uma tragédia…

Também pode não ser você. Pode ser um filho. Um irmão. Um pai. Alguém que ontem estava sentado à mesa e amanhã começa uma viagem que ninguém da família consegue compreender.

Duas pequenas histórias reais que pude presenciar

Na primeira, conheci um homem habilidoso, daqueles que sabiam trabalhar com as mãos e consertar quase tudo. Teve serviço. Teve casa. Teve uma mãe que o amava profundamente. E teve uma dependência: o crack…

Durante algum tempo, o vício e a vida conviveram. Depois, o vício começou a ocupar espaço demais. Primeiro, foi o dinheiro. Depois, alguns objetos. Depois, outros.

Enquanto a dependência crescia, a vida diminuía. A mãe envelheceu tentando sustentar o que ainda restava. Até que morreu. Ele ficou sozinho naquela casa.
Ainda havia fogão, geladeira, móveis e paredes carregadas de lembranças.

Mas a casa começou a desaparecer, pedaço por pedaço. Até a porta virou mercadoria. Depois, vieram a doença e a morte. No fim, sobraram ruínas e lembranças de uma família que um dia esteve inteira ali. Ninguém nasce nos escombros.

Na segunda, recentemente conheci outro rapaz. Estava havia poucos meses na rua. Não tinha um grande ofício, mas tinha sensibilidade e um curioso talento de artesão.

Fazia pequenas flores com fios de palha e distribuía às pessoas, pedindo apenas que as mostrassem nas redes sociais em nome do amor, com um olhar simpático e um sorriso no rosto.

Era estranho e bonito… Alguém falando de amor enquanto vivia cercado de tristeza. Tentamos ajudá-lo. E ele quis ser ajudado. Tomou banho. Cortou o cabelo. Fez a barba. Ganhou roupas, algum dinheiro, trabalho e a possibilidade de recuperar seus documentos.

Por alguns dias, parecia que o trem finalmente havia parado numa estação. Sua alegria foi tanta que, em alguns momentos, ele chegou a me abraçar e a me beijar como se eu fosse seu pai.

Mas, no terceiro dia, ele não apareceu. Não foi sequestrado. Não aconteceu nenhuma grande tragédia. Simplesmente, não veio. Talvez, medo. Vergonha. Insegurança. Talvez, alguma tentação da noite anterior. Não sei.

E, talvez, seja justamente esse o ponto. Para quem está de fora, voltar parece simples. Para quem está dentro do trem, talvez não seja. Enquanto isso, em algum lugar, existe outro rapaz ou outra moça, longe de casa, sem dinheiro, sem teto e com vergonha de telefonar.

Do outro lado, uma mãe. Ela, talvez, não saiba onde ele está. Talvez, nem compreenda completamente o que aconteceu. Mas diz ao telefone: “Filho, volta para casa”.

Só de ouvir essa frase já me parte o coração. Sem sermão. Sem filosofia. Apenas uma mãe chamando o filho de volta. Porque retornar também exige coragem. Voltar é admitir que alguma coisa saiu do controle. É aceitar uma mão. É bater novamente numa porta.

Quem ama alguém que está se destruindo acaba aprendendo uma verdade dolorosa: amor não é poder. Podemos estender a mão. Abrir uma porta. Procurar ajuda. Orar. Esperar.

Mas existe uma parte do caminho que ninguém consegue percorrer pelo outro. Foi pensando nisso que voltei a ouvir Runaway Train, do Soul Asylum.
Às vezes, um trem desgovernado não precisa de alguém que o conduza para sempre. Precisa apenas de uma estação onde consiga parar por alguns minutos.

Eu também já andei nesse trem, mas consegui encontrar a minha estação… Talvez, por isso tenha aprendido que, às vezes, tudo o que alguém precisa é descobrir que ainda existe uma porta aberta – e alguém do outro lado dizendo: “Volta para casa, filho…”

E, mesmo que essa pessoa não volte agora, você não pode desistir de plantar a semente em vários corações, porque, em toda lavoura, algumas plantas germinam, outras não…

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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A intenção era outra, mas “deu zebra”
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