Sexta-feira, 05 de Junho de 2026

Home Saúde Uma em cada seis mulheres no mundo enfrenta dificuldades para engravidar

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A designer Ana Paula Frade sempre quis ter filhos, mas o início de uma nova vida em Portugal, o trabalho e a mudança para uma casa maior entraram na frente e acabaram adiando os planos. Aos 35 anos, ela e o marido decidiram dar início às tentativas para engravidar, porém um processo que ela imaginava ser simples e rápido tornou-se um período de cinco anos até que finalmente chegassem ao momento atual: à espera da pequena Luísa, que deve nascer em junho.

“Depois de mais de um ano tentando naturalmente, descobrimos que eu tinha uma baixa reserva ovariana para minha idade e meu marido tinha baixa contagem de espermatozoides. Desde que eu era pequena sempre me disseram para tomar cuidado que engravidar é muito fácil, então aquela dificuldade me assustou. Na época foi uma situação difícil, não quisemos conversar com ninguém. Mas eventualmente observamos que outras pessoas do nosso grupo de amigos estavam passando por situações parecidas”, conta Ana Paula, que hoje tem 40 anos e mora em Lisboa, capital portuguesa.

O cenário é realmente mais comum do que aparenta. Segundo um novo relatório sobre infertilidade, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta terça-feira (03), cerca de 1 a cada 6 pessoas (17,5%) no mundo enfrentam dificuldades para engravidar. O diagnóstico, definido por não conseguir uma gravidez após ao menos 12 meses de tentativas, afeta o “bem-estar mental e psicossocial das pessoas”, defende o órgão.

“Quando começamos a tentar engravidar, me lembro de familiares fazerem piadas para o meu marido do tipo “ah, você não consegue fazer gol, é muito fraco”. Então para muita gente expor essa dificuldade passa como uma fragilidade. É difícil você se sentir excluído desse mundo em que há a ideia de que engravidar é sempre muito fácil”, conta a designer, que chegou a realizar quatro ciclos de reprodução assistida.

Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que a nova taxa de prevalência, estimada após a análise de 133 estudos, não surpreende e está alinhada com o que eles vivem no cotidiano da prática clínica. Porém, destacam que a infertilidade aumenta ano a ano.

“Existe um consenso de que a fertilidade da espécie humana está diminuindo, e o interessante é que isso é mundial. No novo relatório, regiões muito distintas, como África e Europa, têm prevalências parecidas. Por isso a OMS quer colocar uma visão maior da sociedade sobre o problema”, afirma o especialista em reprodução humana assistida Edson Borges Jr., diretor científico do Fertility Medical Group.

Motivos por trás da infertilidade

Entre os motivos para esse impacto, o principal apontado pelos médicos é a busca pela gravidez cada vez mais tarde. No caso das mulheres, a idade é crucial pois o indivíduo já nasce com com a quantidade de folículos, células que vão desenvolver os óvulos, pré-estabelecida, a chamada reserva ovariana.

“A partir dos 35 anos, a reserva ovariana passa a cair num ritmo gradativo. Para algumas isso ocorre de forma mais rápida, de outras mais lentas, mas acontece para todas. Mas a idade não é algo apenas ligado à mulher, também marca uma queda na qualidade seminal entre a população masculina”, diz a especialista em reprodução humana assistida Mychelle Garcia, ginecologista e obstetra da Maternidade Escola Januário Cicco, vinculada à rede Ebserh, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (MEJC/UFRN).

O professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Renato Fraietta, coordenador do Setor Integrado de Reprodução Humana da instituição, explica que a idade afeta ambos os sexos por ser mais tempo em que a pessoa é exposta a fatores da vida moderna que comprovadamente interferem na qualidade dos gametas.

“Obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo de álcool excessivo, uso de substâncias, poluição ambiental, poluentes do plástico, estresse, tudo isso tem efeito na qualidade e quantidade dos gametas. Por isso é importante que as pessoas saibam que esse impacto existe, e que fazer atividade física, não usar substâncias danosas, não fumar, não beber em excesso, dormir melhor são hábitos que ajudam a combatê-lo”, orienta o especialista.

Ivan Penna, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e chefe do Serviço de Reprodução Humana do Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF, acrescenta que isso tem levado a uma queda consistente na qualidade do sêmen nas últimas décadas, um indicador mais fácil de se monitorar.

De acordo com um estudo publicado no ano passado na revista científica Human Reproduction Update, a concentração de espermatozoides entre os homens caiu 51,6% em todo o planeta nos últimos 46 anos. Além disso, essa queda acelerou a partir dos anos 2000, para quase o dobro do observado no final do século anterior.

“Hoje, diferente da década de 70, fala-se que a infertilidade do homem pode ser responsável por até metade dos casos totais, enquanto antes era por volta de apenas 30%, 35%”, diz o professor, que destaca o impacto de fatores ambientais no quadro.

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