Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2021

Home em foco Única solução para a violência é legalização de todas as drogas, diz ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos

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Ele parece não perder nunca o bom humor, mas quando o assunto é paz a expressão muda. Cinco anos após ter assinado o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o ex-presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) está preocupado. Numa longa entrevista em seu escritório de Bogotá, o ex-chefe de Estado afirmou que o entendimento não corre risco, mas admitiu que a violência aumentou de forma expressiva nas regiões onde a saída da guerrilha deixou um vazio hoje ocupado por diferentes grupos criminosos.

Ganhador do Nobel da Paz em 2016, Santos defende um acordo com o Exército de Liberação Nacional (ELN), a última guerrilha em atuação na Colômbia. Para combater a violência do narcotráfico, ele defende a legalização de todas as drogas. As tensões políticas na América Latina o inquietam: “O Brasil deveria ser o líder, mas seu presidente é o menos indicado”. Para Santos, “lideranças autoritárias como as de Trump e Bolsonaro estão em declínio”.

1. Como o senhor avalia o processo de paz? Não podemos esquecer, primeiro, que este foi um acordo para terminar com a guerra com as Farc, a guerrilha mais antiga e poderosa da América Latina. Esse acordo foi bem sucedido, 95% dos membros das Farc que se desmobilizaram e entregaram suas armas participam do processo. Os dissidentes recrutaram pessoas por fora. Apenas 5% são ex-membros das Farc. A média de reincidência é entre 12% e 15%. A maioria dos ex-guerrilheiros está se integrando à vida civil, são um partido político, isso funcionou muito bem. Mas o acordo de paz tinha objetivos muito mais ambiciosos. Buscavam-se transformações nas zonas onde estava concentrada a violência, reformas políticas, a questão do narcotráfico, o acordo tem capítulos sobre etnias, gênero. A primeira fase foi cumprida. Dos outros aspectos, que envolviam um plano de desenvolvimento no longo prazo, alguns funcionaram e outros não. O acordo encontrou resistência neste governo, que votou contra o acordo [no referendo de 2016]. Quando percebeu que não podia ir contra o acordo, passou a dizer que estavam fazendo mais que nosso governo. Seria ótimo se fosse verdade, mas não é. Isso mostra que o acordo não é frágil, como disse o presidente [Iván Duque] nas Nações Unidas.

2. O governo de Duque exibe resultados positivos do acordo. “Isso quer dizer que agora sim estão entusiasmados. Seria bom que esse entusiasmo levasse o governo a dedicar mais orçamento e ter políticas mais ativas. De qualquer forma, o acordo não tem volta atrás. O próximo governo terá um plano de voo. No acordo estão as soluções para muitos dos problemas do país, que foram agravados pela pandemia. A desigualdade, sobretudo no campo. Temos a maior concentração de terras no mundo”, observa Santos.

3. O acordo não inclui muitos grupos violentos que estão atuando no país. “Muitos desses grupos criminosos, que quiseram preencher o vazio deixado pelas Farc, já existiam, mas se multiplicaram. Essa violência que estamos vendo em certas regiões, os assassinatos dos líderes sociais, isso demonstra a incapacidade do governo de aplicar uma política de segurança efetiva”, diz o Nobel da Paz de 2016.

4. O senhor vê uma intenção do governo Duque nisso, talvez uma tentativa de gerar críticas ao processo de paz? Não. Acho que simplesmente abandonaram algumas políticas porque eram do governo anterior. Temos isso, combinado à ineficiência do governo. É triste, porque nessas regiões hoje as pessoas estão desesperançadas. No começo, a erradicação de cultivos ilícitos foi muito bem-sucedida. Se você não dá alternativas aos camponeses eles voltaram a plantar esses cultivos. Por isso, o acordo fala sobre substituição voluntária de cultivos ilícitos, o que nós começamos a fazer. As Nações Unidas revisaram essa parte do acordo, e no começo menos de 1% dos camponeses voltaram a produzir drogas.

5. Como o senhor vê hoje a região? Muito mal, da Argentina ao México, vejo uma total falta de liderança. Uma polarização por todos os lados. A pandemia revelou problemas estruturais e os piorou, somos o continente mais desigual do planeta. Falta uma liderança que possa aproveitar as oportunidades que vão surgindo, a oportunidade de fazer um novo contrato social.

6. O Brasil não lidera… “O Brasil deveria ser o líder, mas seu presidente é o menos indicado. O México seria uma alternativa, mas ali tampouco vejo essa liderança. Faltam líderes que despertem empatia, apoio no resto da região. Talvez essa liderança autoritária estilo Trump e Bolsonaro esteja em declínio, e, ao mesmo tempo, esteja surgindo uma liderança que gere confiança, que fale verdades. Veja exemplos como a Nova Zelândia, Alemanha, é o que as pessoas hoje admiram no mundo. Na América Latina, podemos encontrar esse tipo de liderança com mais compaixão. Precisamos de líderes que entendam que, se não trabalharmos pelos mais pobres, não teremos futuro. Também que sejam mais empáticos com a natureza”, diz Santos.

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