Domingo, 27 de Setembro de 2026

Home Eleições 2026 46% das evangélicas preferem Flávio Bolsonaro, e 26% votam em Lula

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Foi em conversas na escola pública onde estuda, em Itumbiara (GO), e em casa com a família que Kawanny Almeida do Nascimento, de 17 anos, decidiu tirar o título de eleitor, embora ainda não seja obrigada a votar.

“Fui entendendo a importância do voto, que molda muitas partes da sociedade e poderia influenciar também o meu futuro”, afirma. Interessada em política, ela ainda não decidiu quem receberá seu primeiro voto. A religião da família é um dos fatores considerados. “O que é importante na política é escolher alguém que esteja de acordo com os meus princípios”, diz a jovem, criada em uma família evangélica.

Kawanny integra neste ano a maioria feminina do eleitorado e dos indecisos. A Folha percorreu cidades do País para a série Voto das Mulheres, que acompanha a participação feminina na disputa presidencial de 2026. Com exceção da adolescente, foram ouvidas mulheres chefes de família, de diferentes perfis e posições políticas, para identificar os fatores que influenciam suas escolhas e os projetos de país que defendem.

Kawanny se diz dividida entre projetos pessoais. Ela sonha em alcançar sucesso financeiro e ter uma casa grande, mas também se imagina como mentora, sob os holofotes, ajudando e influenciando pessoas. “Um lado da minha mente é foco total na carreira, o outro é focado na minha família, com tempo para eles.”

A religiosidade aparece como um dos pontos observados pelas campanhas. As mulheres são maioria entre os adeptos das diferentes vertentes religiosas, com exceção dos que afirmam não ter religião, e representam 55% dos evangélicos.

De origens e posições ideológicas distintas, a mineira Carliane Avellar Gandra, de 42 anos, de direita, e a pernambucana Rayane Barros, 23, de esquerda, têm na fé uma referência para suas vidas e escolhas políticas.

Rayane afirma que já foi conservadora e chegou a querer ser policial. Segundo ela, o candomblé transformou sua trajetória. “Quando chegou no quarto período, conheci a religião que eu professo, e meu orixá, justamente o senhor da justiça, disse que o que eu tinha que fazer era a justiça do povo e não a da farda”, relata. Hoje, cursa Ciências Sociais e Serviço Social e trabalha em uma organização social. Para ela, votar em Lula (PT) representa defender sua existência como mulher negra, de religião de matriz africana e LGBTQIA+.

Carliane, moradora de Belo Horizonte, afirma que seu voto é uma questão de “valores e princípios”, formados em uma família cristã e conservadora. Ela diz que votará em Romeu Zema (Novo) pela “liberdade econômica e conservadorismo”. Em um eventual segundo turno sem o ex-governador de Minas, afirma que apoiará Flávio Bolsonaro (PL) contra qualquer candidato que não seja Lula.

Segundo pesquisa Datafolha de julho, as mulheres são menos influenciadas que os homens por amigos, filhos, cônjuges e lideranças religiosas. Flávio apresenta maior rejeição entre elas, mas, entre as evangélicas, registra 46% das intenções de voto, contra 26% de Lula.

Carliane defende Estado menor e menos impostos, mas afirma que o aborto é o tema que mais pesa em sua decisão: “Sou uma pessoa 100% contra o aborto, isso é o mais importante para mim.”

Pesquisa anual do Iser mostra que valores associados ao cristianismo estão entre os principais fatores que orientam as escolhas políticas de mulheres evangélicas. Segundo a coordenadora da instituição, Lívia Reis, a religião é um importante marcador social, mas deve ser analisada em conjunto com renda, raça e escolaridade. Ela identifica, contudo, um “alinhamento moral” entre parte das evangélicas e o discurso de direita do bolsonarismo.

“Tem essa ideia de proteção da família, da infância, que privatiza de volta para a família o cuidado, em contrapartida ao discurso governamental de esquerda”, afirma Reis. “São 15 anos de ataques à suposta ideologia de gênero, ‘mamadeira de piroca’ e, com o tempo, isso vai se naturalizando.”

A historiadora Heloisa Starling identifica três momentos de mobilização política de mulheres conservadoras: as “blusas verdes” do integralismo, nos anos 1930; a mobilização civil-religiosa do golpe de 1964; e a articulação contemporânea de grupos de oração do projeto Alicerça Brasil, liderado por Michelle Bolsonaro.

“Não é uma iniciativa de partido”, diz Heloisa. “Aproveita-se essa estrutura da igreja evangélica, de grupos de oração em casa, e criam-se células políticas dentro da casa das pessoas.”

Para Rayane, a preferência de parte dos evangélicos por Flávio está relacionada ao discurso religioso sobre a submissão feminina. Seu sonho é um mundo sem violência e racismo. “Onde a colonização nunca tivesse acontecido”, afirma. (Com informações da Folha de S.Paulo)

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