Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2022

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* Texto de autoria de Cynthia Geyer, bacharel em piano e mestre em educação musical pela Ufrgs 

Abril de 2021. Mais uma noite de sarau online. Envio pela tarde um pdf no grupo de Whats dos professores com instruções básicas a serem repassadas aos alunos: colocar o celular no modo 4G, buscar um local iluminado, acompanhar a passagem de som virtual, seguir o perfil da escola no Instagram, revisar os endereços virtuais dos perfis dos alunos, entre outras dicas tão importantes para conseguirmos uma transmissão de maior qualidade nas lives pelo Instagram. O Insta, como nos referimos, tornou-se uma das possibilidades de transformar os nossos lares em palcos virtuais.

A arte inspira, afirmação inegável. E o papel da arte com certeza ganhou destaque nesses tempos tão difíceis. Tanto que a colunista da Folha de São Paulo, a psicanalista Vera Iaconnelli, que vem abordando a saúde mental durante a pandemia, sugere que “tanto na família quanto nas escolas os recursos de arte e cultura são os que permitem que estabeleçamos laços menos violentos, mais fraternos e solidários”.

Mas para que esses laços se estabeleçam, acredito que é necessário desenvolver resiliência e, principalmente, resgatar a fé na humanidade. Há dois anos eu não imaginava que os saraus virtuais se tornariam um dos momentos mais esperados pelos nossos alunos e suas famílias. A nova realidade, com seu manto de ansiedade e incertezas, paralisou literalmente as nossas vidas. Ao mesmo tempo, falar de tudo isso é falar de adaptação e transformação. Em poucos meses, a estrutura que a escola tinha foi sendo desmontada. Demissões, suspensões e benefícios governamentais viraram realidade e muitos professores da escola foram obrigados a buscar diferentes caminhos na contramão da falta de alunos.

Além da questão financeira, o que despontou nesse cenário foi justamente a necessidade de um novo olhar sobre a prática pedagógica. Um artigo publicado no livro “Mídia, cultura inovativa e arte criativa em tempos pandêmicos” apresenta um panorama de como está sendo o ensino da música no ambiente online e de como os professores estão sendo afetados, já que a atividade exige proximidade e presença. Uma das professoras de Educação Musical entrevistadas relatou que o desafio foi enorme no que se refere à elaboração e aplicação das atividades, na aprendizagem dos alunos e até no retorno dos pais. Na escola, observamos o mesmo, e a equipe que restou foi justamente aquela que decidiu se reinventar, buscar formação adicional, novas tecnologias e câmeras que nos ajudaram a mostrar os instrumentos de forma mais eficiente nas aulas online, aplicativos de teoria musical, um universo de conhecimento a ser desbravado. E, hoje, podemos dimensionar as oportunidades online que se abriram para aquisição do conhecimento na forma de cursos, palestras, treinamentos, um mar de possibilidades para o estudo e formação, muitas delas gratuitas ou a preços muito acessíveis.

Chegou o momento, entramos ao vivo. O sarau foi lindo. Piano, canto, guitarra, ballet infantil com o novo recurso de poder incluir mais participantes ao vivo, descobertas sempre. A cada aluno que ingressava na live, uma emoção, um sentimento de solidariedade, um orgulho de estar dividindo o “palco” não somente com o aluno, mas com uma família, que nessas ocasiões estava unida pelo mesmo desejo, mais do que de prestigiar o seu filho, de participar desse momento artístico tão diferente. Ao contrário das tantas lives com poucos participantes, os saraus eram assistidos por um ótimo público. Avós que moram em outras cidades, primos em outro país, e os próprios alunos figurando diretamente do litoral ou da serra, onde muitas famílias foram buscar refúgio durante a pandemia.

Eu estou convicta de que a arte foi o bálsamo inspirador de muitos estudantes da escola e suas famílias, inclusive com progressos visíveis nos praticantes de instrumento, já que das modalidades artísticas, o ensino online de música foi o que melhor se adaptou. Mas o mais incrível foi a experiência direta com os alunos, professores e pais sem a mediação da estrutura da escola, que nesse momento era praticamente 100% virtual. Daí nasceu uma nova visão não só do negócio, mas da vida.

Agosto de 2021. Quarta-feira pela manhã e os bebês começam a chegar para musicalização. Vou para a secretaria da escola acompanhar o estacionamento dos carrinhos na frente da sala amarela. Alguns estão com a mãe, um deles veio com o avô, outros dois com as babás. Não resisto, mais uma vez começo a fotografar os momentos da aula. Uma rotina tão presente nos vinte anos da escola, nos dias de hoje me parece mágica. Alguma coisa naquela empolgação dos adultos e na curiosidade daqueles pequenos com pouco mais de um ano de idade me faz enxergar o quanto esse contato presencial estava sendo necessário. Muitas dessas mães comentaram que seus bebês praticamente não haviam conhecido outros bebês e ainda não tinham experimentado a socialização.

Hoje sabemos que a música constitui uma importante forma de comunicação e expressão humana e praticamente todos os povos do mundo possuem algum tipo de música. A música também carrega traços de história, cultura e identidade social, que são transmitidos e desenvolvidos através da educação musical. Além disso, há também um fator importante a se considerar: na esfera da saúde, Blasco (1996) coloca que a música está presente na produção de benefícios terapêuticos em níveis diversos nas pessoas, tanto psicológicos, cognitivos, quanto sociais. Na medida em que as aulas presenciais retornaram há menos de três meses na Estação das Artes, todos os dias sou surpreendida pela força da arte e posso verificar a necessidade dessa inspiração na vida das pessoas. Pessoalmente, o impacto da retomada tem se dado muito mais no sentido de valorizar a educação através da arte. Quando elaborei o currículo da Estação Musical, em 2001, tomei como base a teoria de desenvolvimento musical de Keith Swanwick, educador musical inglês, que foi o fio condutor da minha dissertação de mestrado.

Hoje em dia, depois de trabalhar durante muitos anos em interdisciplinaridade com as outras artes além da música e de ser uma estudiosa apaixonada pela educação através da arte, fiz a apropriação dessa teoria para as áreas de teatro, dança e artes visuais no currículo da escola, além de adaptar uma premissa básica do pensamento dele: “A educação através da arte, é antes de tudo, educação. E deve priorizar uma apreciação rica e ampla, quer o aluno se torne um artista profissional, um amador talentoso ou um membro sensível das plateias”.

Dessa forma, quando olho hoje para trás, vejo que esse parêntese aberto pela pandemia está prestes a se fechar. Entendo que lidamos e ainda estamos nos recuperando de um momento difícil, mas de muitos aprendizados. Por isso, quando vejo os alunos do teatro preparando uma improvisação para apresentar aos pais que estão aguardando na recepção, é inevitável sentir a emoção do artista, é como pisar no palco. É arte, e a arte inspira.

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