Domingo, 20 de Setembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 20 de setembro de 2026
Há experiências que não cabem inteiramente em palavras. Algumas viagens mudam o nosso conhecimento sobre um lugar; outras mudam a maneira como enxergamos o próprio mundo. Minhas idas à Amazônia — quatro vezes, em diferentes momentos — produziram em mim algo dessa natureza. Eu não voltei de lá apenas com novas informações sobre a floresta. Voltei com perguntas. E talvez sejam justamente as perguntas que mais permanecem quando uma experiência realmente nos transforma.
Ao conhecer um pouco mais de perto os povos do Norte brasileiro, comecei a perceber que determinadas palavras que usamos com tanta facilidade carregam significados muito maiores do que imaginamos. Ancestralidade. Coletividade. Território. Saberes. Natureza. Comunidade. Para nós, muitas vezes essas palavras aparecem como conceitos. Para diferentes povos que vivem e pensam a partir de outros referenciais, elas podem representar uma forma concreta de existir. Uma relação na qual o indivíduo não está necessariamente separado do coletivo, nem o ser humano colocado acima da natureza como se fosse algo externo a ele.
Isso me fez pensar que talvez exista uma consciência muito mais antiga do que aquela que a modernidade nos ensinou a reconhecer. Uma consciência construída ao longo de milhares de anos, anterior às nossas instituições, aos nossos sistemas econômicos e até mesmo às fronteiras que hoje consideramos naturais. Não estou dizendo que precisamos romantizar os povos originários ou imaginar que possuem respostas para todos os nossos problemas. Seria outra forma de simplificação. Mas acredito que temos muito a aprender quando conseguimos escutar conhecimentos que sobreviveram porque foram transmitidos entre gerações e porque mantiveram uma relação profunda com o território e com a vida.
Talvez a nossa civilização tenha desenvolvido uma extraordinária capacidade de transformar o mundo, mas ainda não tenha desenvolvido na mesma proporção a capacidade de compreender as consequências dessa transformação. Criamos máquinas, cidades, mercados, redes digitais e sistemas capazes de processar quantidades gigantescas de informação. Somos capazes de alterar paisagens inteiras e modificar profundamente os ciclos naturais. Mas ainda lutamos para responder a uma pergunta aparentemente simples: para que estamos fazendo tudo isso?
É por isso que, ao olhar para a minha própria caminhada, percebo que algumas experiências foram muito além de acontecimentos pessoais. Elas foram me ensinando que existem diferentes maneiras de compreender o ser humano, a natureza e a própria vida. Quanto mais conheço, viajo, escuto e observo, mais percebo que aquilo que considero verdade hoje é apenas uma parte de uma realidade muito maior. Talvez seja justamente essa consciência de que não sabemos tudo que nos torna capazes de continuar aprendendo. E, diante de um futuro que estamos construindo com uma velocidade jamais experimentada, talvez esteja chegando o momento de fazer uma pergunta ainda mais profunda: o que tudo isso está fazendo de nós?
É aqui que minha ideia de humanismo volta a encontrar sentido. Não se trata apenas de defender o ser humano contra aquilo que o ameaça. Trata-se de tentar compreender o que significa ser humano. O que estamos fazendo com nossa consciência? Que tipo de sociedade estamos construindo? O que estamos transmitindo para as próximas gerações? E que relação queremos estabelecer com a natureza da qual, apesar de toda a nossa tecnologia, continuamos absolutamente dependentes?
Talvez essas perguntas sejam ainda mais urgentes agora, quando entramos em uma época em que a inteligência artificial começa a ocupar espaços que durante muito tempo consideramos exclusivamente humanos. Máquinas já conseguem produzir textos, imagens, códigos, análises e decisões em velocidades que desafiam nossa compreensão. Ao mesmo tempo, enfrentamos ameaças concretas relacionadas às mudanças climáticas, à perda de biodiversidade, à degradação dos ecossistemas, às guerras e à própria capacidade humana de produzir tecnologias cujo impacto ainda não conseguimos dimensionar completamente.
Não vejo a inteligência artificial apenas como uma ameaça. Ela também pode ampliar nossas capacidades e ajudar a resolver problemas que hoje parecem enormes. Mas talvez a chegada de uma inteligência construída por nós nos obrigue, pela primeira vez com tamanha intensidade, a perguntar o que existe em nós que não pode ser reduzido à inteligência. Talvez precisemos falar mais sobre consciência, ética, responsabilidade, empatia, pertencimento e propósito.
Talvez a grande questão do nosso tempo não seja saber se a humanidade conseguirá criar máquinas cada vez mais inteligentes. A pergunta que me inquieta é outra: seremos capazes de nos tornar mais conscientes na mesma velocidade em que estamos tornando nossas máquinas mais inteligentes?
Talvez esse seja o verdadeiro mergulho que precisamos fazer. Não para encontrar respostas definitivas, mas para reencontrar aquilo que nos torna humanos.
E é por isso que continuo caminhando, perguntando e escrevendo. Não porque tenha descoberto o caminho, mas porque acredito que, enquanto ainda formos capazes de fazer perguntas sobre o caminho, ainda teremos a possibilidade de escolher para onde queremos ir.
Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética