Terça-feira, 04 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 4 de agosto de 2026
Há uma pergunta que poucas pessoas têm coragem de fazer: quando foi a última vez que você gostou da sua própria companhia?
Não estou falando daquele intervalo entre uma reunião e outra, nem dos minutos distraídos rolando o celular na fila do banco.
Falo de escolher estar consigo mesmo. Sem culpa. Sem pressa. Sem a sensação de que está devendo explicações para alguém.
Curiosamente, muita gente se casa acreditando que felicidade é fazer tudo junto. E, aos poucos, sem perceber, começa a fazer quase nada consigo.
O café que antes era um ritual silencioso vira um café apressado. A caminhada desaparece. O livro fica fechado na cabeceira. A aula de pilates é cancelada porque “o outro não quis ir”. A viagem de fim de semana para pensar na vida parece egoísmo. O happy hour com amigos ganha um interrogatório antes mesmo do primeiro brinde.
E assim, entre pequenas renúncias, algumas pessoas deixam de morar dentro de si.
Confesso que esta reflexão nasceu muito antes desta página. Ela tem surgido, repetidas vezes, dentro do consultório. Entre casais que amo acompanhar, ainda encontro homens e mulheres que sentem culpa ao desejar um momento para si ou insegurança quando o outro decide viver esse mesmo espaço. Como se amar significasse estar disponível o tempo todo. Mas amor e vigilância nunca foram sinônimos.
Existe uma diferença enorme entre compartilhar uma vida e abandonar a própria essência.
Casamento saudável não é viver de mãos dadas vinte e quatro horas por dia. É saber que, mesmo quando as mãos se soltam por algumas horas, os corações continuam escolhendo o mesmo caminho.
Há uma beleza imensa em entrar sozinho numa cafeteria, pedir seu café preferido e descobrir que a conversa mais interessante daquela manhã acontece dentro de você.
Há algo profundamente restaurador em passar uma tarde lendo, caminhar sem destino, fazer uma massagem sem olhar o relógio a cada cinco minutos ou participar de uma imersão apenas para reorganizar pensamentos, orar e lembrar dos sonhos que talvez tenham ficado esquecidos entre roupas para dobrar e compromissos da agenda.
Da mesma forma, não existe pecado algum em rir com os amigos depois do trabalho, enquanto seu cônjuge escolhe descansar em casa. Nem toda alegria precisa acontecer na mesma fotografia.
Aliás, talvez um dos maiores presentes que possamos oferecer a quem amamos seja continuar sendo alguém interessante.
Pessoas que cultivam seus talentos, amizades, hobbies, espiritualidade e projetos pessoais voltam para casa trazendo novidades, energia, histórias e leveza.
Quem abandona completamente a própria identidade, cedo ou tarde, acaba esperando que o outro seja responsável por preencher todos os vazios da existência. E nenhum amor suporta esse peso por muito tempo.
Antes do casamento existiam sonhos, gostos, metas, amigos, silêncios e pequenas manias que ajudaram a construir quem você é.[
Casar nunca deveria significar o funeral dessa pessoa. Talvez signifique apenas convidá-la para caminhar ao lado de outra.
Talvez uma das maiores maturidades de um relacionamento seja aprender que a ausência física, quando existe confiança, não representa ausência de amor.
É claro que individualidade não combina com segredos, desrespeito ou uma vida escondida. Individualidade saudável não afasta.
Ela fortalece. Não cria distância emocional. Cria oxigênio para o relacionamento respirar. Porque quem sabe estar bem consigo mesmo costuma amar sem sufocar.
E quem aprende a apreciar a própria companhia volta para casa com algo precioso para oferecer: presença de verdade.
No fim das contas, talvez o amor mais bonito não aconteça quando duas vidas se confundem.
Acontece quando duas histórias continuam inteiras e, ainda assim, escolhem caminhar na mesma direção.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante