Domingo, 23 de Agosto de 2026

Home Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues Acampamento Farroupilha e a herança dos jesuítas

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Quatro séculos antes do galpão, do mate e do cavalo, as Missões já escreviam parte da alma gaúcha.

No próximo sábado, 29 de agosto, abrem-se os portões do Acampamento Farroupilha, no Parque Harmonia, em Porto Alegre. O maior encontro da tradição gaúcha terá como patrona a cantora e compositora Fátima Gimenez, primeira artista a gravar em disco uma interpretação do Hino Rio-Grandense, em 1989, e também lembrará o centenário de Dimas Costa, compositor do Parabéns Gaúcho. Mas é olhando ainda mais longe no tempo que os Festejos Farroupilhas de 2026 encontram sua inspiração maior: os 400 anos da Herança Jesuítica e Guarani nas Missões, tema oficial desta edição.

Talvez seja preciso voltar quatro séculos para compreender por que, quando a chaleira chiar nos galpões e a fumaça do primeiro fogo subir sobre o Harmonia, haverá muito mais história naquele cenário do que imaginamos.

Antes de existir o Rio Grande do Sul, antes das fronteiras entre portugueses e espanhóis, antes da estância e do próprio gaúcho, os povos Guarani já habitavam estes campos. E foi nesse mundo que chegaram os missionários da Companhia de Jesus.

Em 1626, o padre Roque González de Santa Cruz fundou São Nicolau, iniciando o primeiro ciclo missioneiro. Dois anos depois, entretanto, a cruz encontraria também o martírio.

Em 1628, Roque González e os padres Afonso Rodrigues e João de Castilhos foram mortos em meio à reação liderada pelo cacique Nheçu contra a expansão missionária. Roque foi morto a golpes. Afonso Rodrigues sofreu destino semelhante. João de Castilhos, meu ancestral, enfrentaria uma morte ainda mais cruel: foi capturado, torturado e arrastado por quilômetros, até ser morto às margens do Ijuí, atingido por pedras e flechas, amarrado a uma cruz.

Três homens tombaram, mas a cruz permaneceu em pé. Séculos depois, os três mártires seriam canonizados pelo Papa João Paulo II, em 1988.

A história, contudo, nunca possui apenas uma margem. Naquele mesmo tempo, bandeirantes avançavam sobre a região, aprisionando indígenas para escravizá-los. As reduções, ao reunirem milhares de Guarani, tornavam-se também alvos desses caçadores de homens.

Até 1634, chegaram a existir 18 reduções. Depois vieram ataques, destruição e abandono. Mas algo ficou nos campos: o gado.

Soltos nas imensidões, os rebanhos multiplicaram-se e deram origem a enormes reservas, como a Vacaria do Mar e, posteriormente, a Vacaria dos Pinhais.

E aqui começa uma linha quase invisível que atravessa nossa história: Missões, gado, estância, tropeiro, charque, economia pastoril e gaúcho.

Em 1682, os jesuítas retornaram. Começava o segundo ciclo, que nos legaria os Sete Povos das Missões: São Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo Custódio.

Não eram apenas igrejas cercadas de indígenas. Eram sociedades organizadas, com agricultura, pecuária, oficinas, música, escultura, arquitetura, erva-mate e administração comunitária.

E é importante dizê-lo: essa obra não foi somente jesuítica. Foi jesuítico-guarani. Os Guarani foram agricultores, músicos, escultores, artesãos, construtores, soldados e protagonistas dessa extraordinária experiência humana.

Depois vieram o Tratado de Madri, em 1750, a Guerra Guaranítica, a morte de Sepé Tiaraju, em 1756, e, finalmente, a expulsão dos jesuítas dos domínios espanhóis, encerrando-se sua administração nos Sete Povos por volta de 1768 e 1769.

Mas povos podem desaparecer sem que desapareçam suas pegadas.

Das Missões ficaram a pecuária e a estância; o mate e a cultura do campo; a música, a escultura e o barroco missioneiro; a religiosidade e até o mapa, onde São Borja, São Nicolau, São Luiz Gonzaga, São Miguel e Santo Ângelo continuam pronunciando nomes de quatro séculos.

Não se pode dizer que o gaúcho nasceu exclusivamente das Missões. Somos resultado de muitas águas: indígenas, espanhóis, portugueses, africanos, mestiços e imigrantes.

Mas uma dessas águas brotou nas Missões.

Antes da estância portuguesa, houve a estância missioneira. Antes dos grandes rebanhos dos tropeiros, houve o gado das reduções. E antes de o chimarrão tornar-se símbolo do Rio Grande, os Guarani já sorviam a erva-mate.

Por isso, quando os portões do Acampamento Farroupilha se abrirem neste sábado, talvez devamos enxergar além das pilchas, dos cavalos e dos galpões.

Há quatrocentos anos de história caminhando conosco.

As pedras de São Miguel ainda falam. O mate ainda passa de mão em mão. O gado ainda pasta nos campos. E aquela velha cruz missioneira, que um dia testemunhou sangue e martírio, continua projetando sua sombra sobre nossa memória.

Porque a identidade gaúcha não nasceu pronta.

Foi sendo escrita por muitos povos, como quem costura uma grande bandeira através dos séculos. E, entre seus primeiros fios, estão para sempre entrelaçados o Guarani e a cruz dos jesuítas.

* Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor (castilhosadv@gmail.com – @castilhosadv)

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