Domingo, 23 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 23 de agosto de 2026
A cooperação sempre exerceu sobre mim uma espécie de fascínio. Desde jovem, fui atraído pela ideia de construir algo em conjunto, mas a prática nem sempre foi simples. Em sindicatos, associações e clubes, percebia que havia os que abraçavam a filosofia cooperativa e os que não a compreendiam. Eu mesmo, tímido e deslocado, muitas vezes me sentia mais espectador do que participante.
Na juventude, levado a um sindicato de categoria, vivi a estranheza de estar num espaço coletivo sem conseguir tomar a palavra. Meu corpo magro, ombros encolhidos e voz insegura reforçavam a sensação de inadequação. A timidez foi uma marca de quase toda minha juventude, e a vergonha de meu jeito me impedia de me posicionar. Essa experiência revelou uma falha comum nos ambientes cooperativos: convidar alguém a participar não basta, é preciso acolher e dar espaço para que cada voz, mesmo tímida, se sinta legítima.
Mais tarde, já em uma vida executiva, passei a participar de entidades de classe. Organizava eventos, ajudava em manifestos, mas ainda não conseguia formar opinião própria. Parecia seguir algo sem saber exatamente o quê. Esse é outro dilema da cooperação institucionalizada: quando o indivíduo adere às atividades sem se reconhecer na causa, a participação se torna conformismo, não engajamento.
Foi na CIC Jovem de Garibaldi, já aos 30 anos, que minha trajetória começou a mudar. Ali, junto a outros jovens empresários, ajudamos a construir um departamento dentro de uma entidade quase centenária. O objetivo era formar novas lideranças, e para minha surpresa, floresci. Aprendi a lidar com a liderança voluntária, sem remuneração nem garantias, apenas pelo desejo de fazer parte de algo maior. Organizamos eventos e até uma manifestação pública que repercutiu em todo o Rio Grande do Sul. Era um tempo diferente, há 25 anos, mas que deixou marcas profundas.
Com o incentivo de Luis Carrer, diretor executivo, assumi a vice-presidência da FAJERS, a Federação de Jovens Empresários do Rio Grande do Sul. Ali, fui obrigado a ter mais atitude, a perder o medo do microfone e a falar de forma protocolar. Foi um aprendizado e tanto, pelo qual sou grato até hoje. A cooperação, percebi, não é apenas filosofia: é uma escola silenciosa de liderança, capaz de transformar timidez em protagonismo.
Vieram outros desafios, e sempre os abracei. Em Brasília, lutei pelo direito do brasileiro gerar sua própria energia. Com poucas e corajosas pessoas, organizamos uma manifestação pública na Praça dos Três Poderes, no auge da pandemia — a única manifestação daquele período. A lei foi aprovada. Depois, recebi o convite do INEL, Instituto Nacional da Energia Limpa, para ser uma das vozes do setor. Também participei de audiências com Ministério Público, promotoria e eventos na Assembleia Legislativa. A cooperação, mais uma vez, mostrou sua força: quando indivíduos se unem em torno de uma causa, mesmo sem garantias, podem transformar a realidade.
Hoje, meu espírito cooperador está voltado para a Fundação Gaia, onde trabalho voluntariamente para manter vivo o legado de José Lutzenberger, que partiu em 2002 e faria 100 anos este ano. Lutzenberger foi um pioneiro da consciência ambiental no Brasil e no mundo, e é uma honra contribuir para que sua mensagem siga viva. Recentemente, tive o desafio de apresentar um painel na COP30, destacando sua importância para a consciência ambiental brasileira. Foi uma experiência única, reconhecida nacionalmente, que agradeço todos os dias.
Minha trajetória mostra que a cooperação é mais do que uma ideia bonita: é prática transformadora. Ela exige coragem, engajamento voluntário e disposição para enfrentar resistências. É capaz de levar um jovem tímido, de ombros encolhidos, ao microfone de uma conferência nacional. É capaz de transformar silêncio em voz pública, conformismo em liderança, e participação local em impacto nacional.
Se a timidez me calava na juventude, foi a cooperação que me ensinou a falar. Hoje, ao lembrar Lutzenberger na COP30 e ser reconhecido nacionalmente, percebo que a verdadeira força coletiva não está apenas em aprovar leis ou organizar eventos, mas em manter viva a consciência de que fazemos parte de algo maior.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética (rena.zimm@gmail.com)