Sábado, 22 de Agosto de 2026

Home Geral Advogado de Lulinha diz que se seu cliente não fosse filho de Lula, o caso já teria sido arquivado

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O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende Fábio Luís Lula da Silva, vulgo Lulinha, disse em entrevista à GloboNews que os três inquéritos que tramitam contra seu cliente no Supremo Tribunal Federal (STF), por suposto tráfico de influência, seriam arquivados se o empresário não fosse filho do presidente da República. “Ele (Lulinha) carrega o peso de um sobrenome”, resmungou o defensor.

Pode ser que o causídico tenha razão. É provável que um cidadão qualquer, sem parentesco com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, jamais tivesse chamado a atenção da Polícia Federal (PF) por, supostamente, negociar contratos com a administração pública federal – sobretudo considerando que os negócios, até onde se sabe, nem sequer se concretizaram. Mas o contrário também é verdadeiro: o sobrenome que agora joga os holofotes sobre Fábio Luís é exatamente o mesmo que catapultou Lulinha da irrelevância para uma bem-sucedida carreira empresarial. Mais bem dito: Fábio Luís só é quem é na vida nacional – e só enriqueceu – por ser o primogênito de Lula.

Formado em Biologia, Lulinha começou a vida profissional como monitor do Zoológico de São Paulo. Sua trajetória no mundo dos negócios começou – e prosperou de forma espetacular – durante o primeiro mandato presidencial do pai. Em 2004, um ano após a posse de Lula, Lulinha, então aos 29 anos, criou a empresa de produção de programas dedicados a jogos eletrônicos que viria a se chamar Gamecorp. No início de 2005, a empresa, cujo capital inicial era de singelos R$ 10 mil, recebeu um aporte de R$ 5 milhões (cerca de R$ 17 milhões em dinheiro de hoje) da Telemar, depois Oi – uma das empresas tratadas como “campeãs nacionais” pelos governos petistas.

Questionado à época sobre o sucesso repentino de Lulinha, o presidente saiu-se com esta: “Que culpa tenho eu se meu filho é o ‘Ronaldinho’ dos negócios?”. Não se tem notícia de outro caso semelhante, donde se conclui que, ou Lulinha é realmente um craque da multiplicação do capital, ou, por ser filho de quem é, recebeu uma dinheirama de uma grande empresa de telecomunicações agraciada com vultosos e camaradas financiamentos do BNDES para expandir seus negócios a partir de 2006.

Aqui não nos interessa perscrutar o mérito dos inquéritos que ora pesam sobre Lulinha, que, ao fim e ao cabo, poderão ou não ensejar a apresentação de denúncia contra ele. Entretanto, se é verdade que Lulinha nunca foi condenado por nenhuma das suspeitas que o rondam há duas décadas, não se pode ignorar que seu sobrenome jamais deixou de abrir portas em todo esse tempo e, principalmente, atrair lobistas. Ser Lula da Silva, por óbvio, garante acesso irrestrito ao presidente da República, marca audiências com autoridades de diferentes escalões e, no limite, pode gerar bons negócios. Não é preciso provar crime algum para reconhecer esse fato. E quem se beneficia de seu laço de sangue com o presidente da República não pode, quando o sobrenome lhe é inconveniente, exigir tratamento de cidadão comum. O advogado de Lulinha, ao pugnar por isso, tratou-nos a todos como idiotas.

Dificilmente uma amizade como a que há entre Lulinha e a tal lobista Roberta Luchsinger, outra investigada naqueles inquéritos que tramitam no STF, despertaria tanto interesse da PF se não envolvesse um dos filhos de Lula, alguém com trânsito reconhecidamente livre em Brasília. A amizade que hoje os une como investigados até pouco tempo atrás os unia como sócios, impondo uma singela pergunta: a sra. Luchsinger teria se aproximado de Fábio Luís não fosse ele o Lulinha?

Nenhum democrata pode defender que Fábio Luís seja investigado, julgado ou eventualmente punido com mais rigor do que outro cidadão na mesma situação apenas por ser quem é. Sob esse prisma, Lula está correto ao dizer que, “se meu filho tiver culpa, ele pagará”. O problema é tentar fazer o Brasil acreditar que Lulinha é mera vítima de um sobrenome, como tentou seu advogado. Não se pode desfrutar da delícia de ser Lula da Silva e tentar dissipar a dor de sê-lo quando convém. Aí a vida é fácil. (Opinião/Jornal O Estado de S. Paulo)

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