Sábado, 15 de Agosto de 2026

Home Saúde Apesar do movimento “álcool zero”, simples moderação no consumo já tem efeito positivo a longo prazo

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O movimento recente que prega tolerância zero no consumo de álcool tem alastrado uma sensação de frustração e de impotência em inúmeras pessoas, com perfis de consumos dos mais variados. Médicos e dados de pesquisas recentes, no entanto, mostram que, para a maioria das pessoas, a simples moderação no consumo já é capaz de trazer efeito positivos e de longo prazo.

Um trabalho publicado na revista científica JAMA Network Open mostrou que, entre homens que ingerem álcool excessivamente (definido como mais de duas doses por dia), a redução para níveis considerados moderados, de cerca de uma dose diária, já foi relacionada a uma queda de quase 10% no risco dos cânceres atribuíveis ao álcool.

“A saúde tem que ser pensada como um bem-estar geral, não apenas biológico, que envolve aspectos sociais, culturais. Se a pessoa não consegue deixar de beber, uma taça de vinho no final de semana, para quem não tem problemas de saúde, por exemplo, é algo razoável. Mas as pessoas não devem beber todos os dias e nem quantidades elevadas numa única ocasião”, explica Ben-Hur Ferraz Neto, cirurgião especialista em fígado e aparelho digestivo e diretor do Instituto do Fígado Americas

Ben-Hur ressalta que não existe um consenso oficial sobre o que é “beber moderado”, com as diretrizes mais recentes de autoridades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) apontando que não há limite mínimo considerado seguro.

“Diminuir o consumo já pode reduzir consideravelmente muitos riscos. Claro, se você é gestante ou tem um problema de saúde que é agravado pelo uso do álcool, como uma doença hepática, então você deve evitar por completo. Mas o beber eventualmente, por uma pessoa saudável, é algo mais tolerável”, diz Ben-Hur.

No ano passado, um estudo conduzido pelo pesquisador Eduardo Nilson, da Fiocruz, a pedido das organizações de saúde Vital Strategies e da ACT Promoção da Saúde, estimou que, se a população brasileira reduzir em 20% o consumo de álcool, uma meta da OMS até 2030, 10,4 mil mortes já poderão ser evitadas a cada ano, o equivalente a um óbito a menos por hora no país.

Outro trabalho da Vital Strategies estimou que 157,4 mil mortes por câncer poderão ser evitadas no Brasil até 2050 se a população que consome álcool reduzir sua ingestão média diária em somente uma dose. O impacto seria observado especialmente para o câncer de intestino, com 30,4 mil vidas poupadas, e para o de esôfago, com 30,1 mil óbitos a menos.

A dose é definida como 14g de álcool, o que corresponde, aproximadamente, a uma lata de 350 ml de cerveja, uma taça de 150 ml de vinho ou 45 ml de destilados. Essa melhora apenas ao reduzir o consumo ocorre porque os impactos nocivos do álcool são dose-dependentes, ou seja, quanto mais se bebe, maiores são os riscos.

Um trabalho publicado na revista científica Journal of Studies on Alcohol and Drugs, estimou que o consumo de mais de sete doses por semana, a partir de uma por dia, leva a um risco de pelo menos 1 em 1.000 de morrer prematuramente por causas ligadas ao álcool. Ao aumentar para mais de 8,5 doses semanais, porém, esse risco sobe consideravelmente para cerca de 1 em cada 100 e chega a aproximadamente 1 em 25 entre aqueles que bebem 14 doses por semana.

Melhoras

Alguns prejuízos cardiovasculares, como a hipertensão arterial, melhoram em poucos dias ou semanas com o consumo reduzido, segundo um estudo publicado na revista científica Addiction. O mesmo vale para os danos cerebrais causados pelo consumo excessivo de álcool: eles podem se recuperar parcialmente com a diminuição das bebidas.

Um benefício também é observado para o risco de câncer, conta a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Clarissa Baldotto. Ela explica que, embora o álcool seja muito associado a cânceres de fígado e esôfago, hoje as evidências apontam para uma relação mais ampla com outros tumores, como de mama e intestino:

Gustavo Pereira, presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ), a regional da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH) no estado, explica que mesmo quadros avançados no fígado, órgão que mais sofre com o consumo do álcool, podem ser revertidos ao colocar o pé no freio:

“Pessoas que têm esteatose hepática e interrompem o consumo começam a apresentar melhora já com 6 a 8 semanas. Aqueles que têm cirrose podem interromper a progressão da doença se cessarem o uso. Alguns ficam por longos períodos de tempo com o quadro assintomático, demandando apenas acompanhamento.Temos casos raros de indivíduos que chegaram a entrar na fila de transplante, mas conseguiram sair. Isso mostra que reduzir o consumo leva a uma melhora da saúde no mais amplo espectro de danos causados pelo álcool.” (Com informações do jornal O Globo)

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