Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026

Home Saúde Entenda os impactos da incontinência urinária durante o envelhecimento

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Quem nunca ouviu alguém da família dizer, quase como uma piada: “Quando eu dou risada, sai um pouco de xixi”? Pois esse é um dos sinais da incontinência urinária, quando ocorre a perda involuntária de urina. Trata-se de um quadro extremamente frequente, especialmente entre pessoas mais velhas, mas continua sendo um assunto pouco discutido. Talvez seja justamente esse silêncio que faça com que tanta gente sofra em segredo.

Afinal, quando acreditamos que algo é “normal da idade”, deixamos de perguntar. E, quando isso acontece, não procuramos soluções.

O quadro tem diferentes causas e apresentações. Pode acontecer ao tossir, espirrar e rir ou surgir como uma vontade súbita e difícil de controlar. Pode estar relacionado a alterações da bexiga, do assoalho pélvico, da mobilidade ou a doenças e até mesmo ao uso de medicamentos.

Seus efeitos vão muito além da roupa molhada. Pessoas com essa condição tendem a apresentar maior risco de quedas e outros problemas de saúde. E existe uma dimensão menos visível: aquilo que a incontinência faz com a vida cotidiana, provocando isolamento social e até receio de engajamento em novas relações sociais e sexuais.

A incontinência, nesse sentido, não fala apenas sobre urina: fala sobre autonomia, autoestima, intimidade e o direito de ocupar espaços públicos sem medo. Além de evidenciar ainda mais o etarismo com o qual convivemos.

Quando tratamos a perda urinária como algo inevitável do envelhecimento, estamos dizendo, ainda que involuntariamente, que algumas limitações devem ser simplesmente aceitas porque a pessoa envelheceu. É uma maneira silenciosa de diminuir as expectativas sobre a vida de quem envelhece.

Abrindo o jogo

Por isso, a primeira estratégia talvez seja a mais simples: falar sobre o assunto. Mas… como abordar o tema? Durante uma consulta, uma conversa com um familiar ou até mesmo em uma avaliação de rotina, uma pergunta aparentemente banal pode abrir uma porta importante: “Você tem perdido urina?”

Às vezes, a resposta será “sim”, acompanhada de um constrangimento. É justamente nesse momento que precisamos acolher – e não naturalizar.

Depois de perguntar, é preciso investigar. Existem situações transitórias e potencialmente modificáveis capazes de piorar ou desencadear a perda urinária. Uma infecção urinária, por exemplo, pode provocar sintomas de incontinência. Alguns medicamentos, entre eles os diuréticos, também podem interferir nos sintomas e precisam ser avaliados individualmente.

Nesse contexto, entra uma equipe interdisciplinar, como o fisioterapeuta com o treinamento da musculatura do assoalho pélvico, por exemplo. É possível apostar também em cuidados como treinamento vesical (quando as micções são programadas em determinadas situações), no tratamento da constipação, na revisão de medicamentos e em mudanças de hábitos.

Quando essas medidas não são suficientes, existem tratamentos medicamentosos e outras possibilidades terapêuticas que devem ser discutidas após uma avaliação individualizada. Vale frisar que não existe uma única incontinência urinária. E, principalmente, que não existe uma única pessoa com incontinência urinária.

Por isso, a pergunta mais importante talvez não seja apenas “quanto de urina essa pessoa perde?”, mas também: “Quanto ela está deixando de viver por causa disso?”.

No fim, essa discussão é menos sobre urina e mais sobre autonomia, independência, estigma e vergonha. É possível perder urina sem perder a vida que se deseja viver. Mas, para isso, precisamos romper o silêncio enquanto o envelhecimento acontece.

É hora de perguntar mais. De acolher o constrangimento sem transformá-lo em piada. De oferecer tratamento sem infantilizar. De olhar para cada pessoa em sua individualidade, sua história, seus desejos e sua subjetividade. E, principalmente, de lembrar que envelhecer não deveria significar aceitar a perda de liberdade como destino. (as informações são do médico e geriatra Milton Crenitte, doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor em longevidade do jornal O Estado de S. Paulo)

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