Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026

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Há histórias que atravessam décadas porque falam de amor, amizade ou coragem. Outras sobrevivem por motivos menos nobres.

Depois que a intimidade vence a cerimônia, começa a verdadeira convivência. Foi um desses “silenciosos imortais” que marcou uma noite na vida do meu amigo Toco, parceiro dos tempos do surfe nos anos 80. Ainda jovens, ele namorava Kelly, sua vizinha.

Certa noite, foi convidado para jantar na casa dela. Colocou a melhor roupa, chegou perfumado e foi recebido pela namorada e pela então futura sogra como um rei. O prato principal era lasanha. Enquanto as duas foram à cozinha buscar o jantar, Toco sentou-se à mesa, serviu Coca-Cola com gelo e aguardou feliz da vida.

Foi quando apareceu Musa, o poodle da família. Toco fez carinho na cadelinha, que se acomodou debaixo da sua cadeira. Segundos depois, um odor brutal tomou conta do ambiente.

Convencido de que a culpada era Musa, Toco bateu o pé junto à cadeira e mandou a cachorrinha se retirar: “Sai daqui, sua porca! Olha o que você fez!”

O problema é que Kelly e a mãe já estavam voltando da cozinha e ouviram perfeitamente a acusação. As duas entraram na sala, uma carregando a salada e a outra, a lasanha, ao mesmo tempo em que eram atingidas em cheio pela nuvem invisível.

A então futura sogra parou, olhou fixamente para ele e disparou em voz alta: “TOCO!”

Kelly ainda completou, indignada: “E ainda põe a culpa na Musa!”

Pronto. Acabou o jantar…

Toco jura que a autora do atentado químico era realmente Musa. Como não houve perícia, testemunha independente ou exame de DNA gasoso, o caso permanece sem solução até hoje…

Anos depois, ouvi outra história envolvendo lasanha. Quem me contou foi o saudoso Daltro Menezes, ex-técnico de futebol e homem que comandou o Internacional na partida inaugural do Beira-Rio.

Daltro, tio do próprio Toco, costumava almoçar em um restaurante em frente à minha casa, no bairro Sarandi, na Vila Leão, em Porto Alegre.

Eu fazia parte do grupo de amigos do seu filho Alexandre e seus primos Toco e Marcelo Menezes. Muitas vezes, Daltro me chamava para acompanhá-lo, pagava meu almoço e ainda me presenteava com histórias maravilhosas. Aquilo, para um jovem de 15 ou 16 anos, era maravilhoso.

Entre suas belas e divertidas histórias, houve uma que jamais esqueci. Ele conta que, aos 15 ou 16 anos, era apaixonado por uma bela vizinha mais velha. Era daqueles amores adolescentes em que qualquer pedido para trocar uma lâmpada parecia missão de Estado.

Um dia, confessou a paixão — e também a virgindade. Comovida, ela lhe prometeu um presente de aniversário: um jantar e, depois, a realização do grande sonho do rapaz.

As duas semanas seguintes pareceram eternas… Então, o grande dia chegou. Porém, o destino resolveu testar seu romantismo: Daltro acordou com uma diarreia monumental.

Desesperado, foi à farmácia, comprou um remédio e, ignorando a recomendação, tomou o dobro. Funcionou.

Pelo menos durante algumas horas… À noite, banho tomado, melhor roupa e perfume do pai, chegou à casa da vizinha.

Ela o recebeu e avisou que a lasanha ficaria pronta em poucos minutos. Foi então que a barriga anunciou o fim do armistício. Daltro perguntou onde ficava o banheiro e caminhou até lá tentando manter a dignidade.

Chegou por muito pouco. Depois da tragédia, percebeu que havia papel higiênico insuficiente para a dimensão do problema. Sem alternativa, sacrificou a própria cueca…

Restava esconder a prova do crime. O cesto estava impecavelmente limpo. Então, viu uma pequena janela voltada para o poço de ventilação do prédio.

Embrulhou como pôde aquela arma biológica e lançou a cueca pela janela. Lavou as mãos, ajeitou-se e voltou para a sala sentindo-se um sobrevivente. A vizinha apareceu sorrindo e o chamou para jantar. Quando entraram na cozinha, o universo entregou o golpe final. Sobre a lasanha recém-saída do forno estava estendida, em absoluto protagonismo, a cueca suja que Daltro acabara de lançar pela janela.

O poço de ventilação, numa dessas obras-primas da engenharia do destino, devolvera o projétil exatamente pela janela da cozinha. O que aconteceu depois, ele resumiu durante anos com uma mistura de vergonha e dor: apanhou, foi expulso e voltou para casa sem jantar, sem romance e, naturalmente, sem cueca.

A história atravessou décadas. Já ouvi versões semelhantes em rodas de conversa e até no humor de palco, mas esta foi a fonte que conheci: Daltro Menezes, contando pessoalmente, entre uma garfada e outra, no velho restaurante do Sarandi.

Talvez seja essa a grande virtude das histórias constrangedoras… No momento em que acontecem, queremos desaparecer.

Décadas depois, viram patrimônio familiar, folclore entre amigos e matéria-prima para um cronista de memória afiada, que não poderia deixar de contar essa história, até mesmo como uma forma de homenagem carinhosa ao meu velho amigo, que não vejo há muitos anos, e a esse senhor que foi, para mim, uma referência de caráter e um mentor…

Quanto às lasanhas, elas não tiveram culpa de nada… Mas, depois dessas duas histórias, confesso: sempre que vejo uma lasanha chegando à mesa, olho primeiro para o cachorro e depois para a janela.

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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