Domingo, 02 de Agosto de 2026

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Sonhos adiados, busca por realização pessoal, atualização profissional e uma vida mais estável têm levado um número crescente de brasileiros com mais de 60 anos às universidades. Em 2024, o País registrou 67.377 matrículas desse público em cursos de graduação, segundo dados do Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC). A alta é de 77% em relação a 2020.

Para Rosa Yuka Sato Chubaci, professora de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), o aumento da população idosa e a difusão do conceito de envelhecimento ativo ajudam a explicar a maior procura.

“Pesquisas verificaram que a principal maneira de você manter a saúde na velhice é ser ativo, tanto em atividades físicas, ou seja, biologicamente, como psicologicamente e emocionalmente”, explica.

A Década do Envelhecimento Saudável, por exemplo, integra uma estratégia da Organização Mundial da Saúde (OMS), que prevê ações coordenadas entre 2020 e 2030 para promover a pauta em diferentes países.

É nesse contexto que histórias como a de Rosana Arguello, de 67 anos, se tornam cada vez mais frequentes. No primeiro dia de aula, Rosana sentiu-se “a pessoa mais importante do mundo”. Hoje, no último período de Psicologia, ela é uma dos três alunos 60+ da turma.

Ela havia iniciado uma faculdade quando jovem, mas interrompeu os estudos para trabalhar. Casou, teve filhos, mudou para São Paulo e dedicou anos à família. Foi apenas aos 62 anos que decidiu voltar às salas de aula. Antes disso, adiava o projeto por acreditar que já estava “velha demais”.

A mudança veio após ouvir a pergunta da própria terapeuta: “O que você vai fazer nos próximos cinco anos que impede você de entrar para a faculdade agora?”. Já aposentada e com condições de destinar parte da renda ao curso, fez a matrícula sem contar à família. Ao chegar em casa, anunciou: “vocês estão olhando para a mais nova universitária da família.”

Universidades buscam se adaptar
A presença desse público também exige que instituições e professores reconheçam experiências e necessidades diferentes. Abrir as portas não se resume a permitir a matrícula. É preciso criar condições para que esses estudantes participem plenamente da vida acadêmica.

Na Universidade de Brasília (UnB), por exemplo, pessoas com 60 anos ou mais podem ingressar na graduação por meio de processo seletivo específico. As vagas são extraordinárias, oferecidas voluntariamente pelas unidades acadêmicas e não reduzem aquelas destinadas aos demais vestibulares.

Segundo o decano de Ensino de Graduação da UnB, Tiago Coelho, a iniciativa busca ampliar o acesso, mas também promover a convivência entre gerações. “A universidade entende que a aprendizagem não tem idade. Quando jovens e pessoas idosas compartilham o mesmo espaço acadêmico, todos aprendem.”

Desde a primeira edição, em 2024, o processo tem registrado crescimento. O número de cursos participantes passou de 37 para 66 e as vagas aumentaram de 136 para 216. Nas cinco primeiras edições, mais de 700 estudantes ingressaram pela modalidade e cerca de 86% permanecem vinculados à universidade.

Apesar dos resultados, a adaptação ainda exige apoio. Segundo Coelho, os principais desafios envolvem a retomada dos hábitos de estudo após anos longe da sala de aula, o uso das plataformas digitais e, em alguns casos, situações pontuais de etarismo.

Programas voltados ao público mais velho também podem funcionar como porta de entrada. Rosa também é professora do USP 60+ e, segundo ela, o programa reúne entre 3,5 mil e 4 mil estudantes com mais de 60 anos no Estado de São Paulo. Na USP Leste, são cerca de 700 a 800 participantes em mais de 30 oficinas.

A experiência de Maria Vanilda Ferreira de Miranda, hoje com 76 anos, mostra como esse primeiro contato pode despertar a vontade de avançar. Maria estudou apenas até a 4ª série e retomou a formação aos 48 anos, quando fez o supletivo. Mais tarde, mudou-se para o interior e, incomodada com a rotina limitada aos cuidados da casa, conheceu o programa Universidade Aberta à Terceira Idade, da Unifunec, em Santa Fé do Sul (SP).

“Quando me mudei, queria ir embora. Eu pensava: ‘nossa, vou ficar aqui só varrendo folha na calçada? Porque o serviço que tinha era varrer folha e limpar a casa. Foi aí que conheci a Universidade Aberta Terceira Idade”, contou. Com informações do portal Estadão.

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