Segunda-feira, 11 de Maio de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 10 de maio de 2026
O cartão de crédito lidera a prioridade no pagamento entre as despesas do orçamento mensal, mostra um levantamento exclusivo do Reclame Aqui junto a consumidores. Do total de entrevistados, 24% afirmaram que o cartão de crédito é a conta que paga em primeiro lugar, mesmo com dificuldades ou atrasos, 22% citaram despesas com aluguel ou moradia e 20% mencionaram serviços básicos, como luz, água, gás e internet.
Os números dão o tom da magnitude da situação de endividamento do brasileiro, que motivou o lançamento da nova edição do programa de renegociação de dívidas Desenrola. Pelos dados mais recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer atingiu 80,4% em março, o maior nível já registrado.
“O cartão é um instrumento de crédito muito importante para a rotina das pessoas, tem sido usado cada vez mais para o fluxo do mês. É ele que permite esse ajuste do fluxo de caixa, a margem se precisar de dinheiro para uma farmácia ou uma emergência”, afirma o CEO do Reclame Aqui, Edu Neves.
“O consumidor paga não necessariamente pela preocupação de manter o nome limpo para pegar o financiamento de um carro ou de um imóvel. É a preocupação com esse dia a dia, o consumidor está muito alavancado”, completa.
Com o patamar elevado de juros, o atraso no pagamento do cartão de crédito custa ainda mais ao consumidor, lembra Neves, o que aumenta a necessidade de evitar a inadimplência nessa despesa.
O levantamento da plataforma de reputação – que atua como intermediária entre consumidores e empresas – foi feito entre os dias 2 e 4 de março junto a 2.073 pessoas que participam de forma ativa do site. Neves classifica os participantes da pesquisa como “consumidores ativos”, com maior engajamento na plataforma.
O perfil dos consumidores do Reclame Aqui é proporcionalmente mais jovem que o da população brasileira, com uma parcela de 38,4% na geração Z (14 a 29 anos) e de 37,7% entre os millenials (30 a 45 anos). No Brasil, 44,9% da população têm entre 15 e 44 anos.
O pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) Flavio Ataliba afirma que o cartão é um dos elementos centrais do endividamento das famílias brasileiras hoje e é usado cada vez mais como extensão dos salários.
Ele classifica como “emblemático” o dado sobre a prioridade dada ao pagamento do cartão de crédito. Segundo ele, esse dado “mostra uma inversão de prioridades no orçamento. É um sinal muito revelador da situação de endividamento no país”.
Pesquisador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira, Júlio César Leandro lembra que outros indicadores mostram uma diversidade no perfil de endividamento, seja por tipo de dívida (empréstimos pessoais ou contas em atraso, por exemplo), seja por credor (bancos ou redes de varejo, entre outros).
“Em geral, a pessoa começa a ficar pendurada em diversas dívidas, pega dinheiro em um lugar para pagar o outro e fica naquela gestão possível. Com certeza as pessoas usam o cartão para pagar outras dívidas”, afirma Leandro.
Uma combinação de fatores explica a atual situação de endividamento das famílias brasileiras, que ocorre a despeito do aumento do rendimento médio nos últimos anos, na avaliação de Ataliba e Leandro.
Piora das condições de crédito após a crise do setor varejista, juros altos – que aceleram o ritmo de aumento das dívidas -, expansão das fintechs com aumento e mais facilidade na oferta de empréstimos e de instituições financeiras e crescimento das bets são alguns dos aspectos citados pelos especialistas.
“O problema do endividamento é mais estrutural. A oferta de crédito digital é grande, as pessoas têm mais cartões de crédito e os juros altos fazem a dívida crescer muito rapidamente”, diz Leandro.
Para Ataliba, a inclusão financeira trazida pelas fintechs é positiva, mas também pode ser um “instrumento perigoso”, por facilitar exagero nas despesas e intensificar um comportamento impulsivo do consumidor.
O levantamento aborda outros aspectos ligados à saúde financeira e à inadimplência. Na avaliação sobre a própria situação, 38% dizem estar com as contas em dia, mas sem sobra para investir, enquanto 32% estão com contas em dia e com capacidade de investir/guardar. Com informações do portal Valor Econômico.