Domingo, 26 de Maio de 2024

Home Mundo Cientistas encontram destroços de navio que tentou salvar o Titanic

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Nos últimos 110 anos, poucas tragédias humanas foram tão esmiuçadas, exerceram tamanho fascínio e inspiraram tantas teorias, conspiratórias ou não, quanto o naufrágio do Titanic. Como é sabido, na madrugada de 14 para 15 de abril de 1912, o luxuoso transatlântico colidiu com um iceberg no Atlântico Norte, se partiu ao meio pouco depois e afundou completamente em menos de três horas.

Agora, mais uma peça do titânico quebra-cabeça foi encontrada. Há alguns dias, cientistas das universidades de Bournemouth e Bangor, no Reino Unido, localizaram, após um século de incertezas, os destroços do navio mercante britânico SS Mesaba que repousam no fundo do Mar da Irlanda. É um feito histórico: por um triz, o Mesaba não salvou o Titanic de seu triste fim.

Segundo registros da época, 1.517 pessoas morreram — até então, jamais tantas vidas haviam sido perdidas em acidentes marítimos. Os relatos dos 706 sobreviventes ajudaram a construir as lendas que envolveram a embarcação, da banda de violinos que fez seu derradeiro ato enquanto o navio mergulhava para a finitude no oceano às disputas literalmente mortais pelos poucos botes disponíveis.

Naquela trágica noite, marinheiros do SS Mesaba avistaram o imenso iceberg flutuando no Atlântico e alertaram os colegas do Titanic, por mensagem de rádio, sobre um perigo iminente em seu caminho. Dados oficiais mostram que o comunicado foi recebido pela tripulação do Titanic, mas, por motivos incertos, não chegou às mãos do comandante do navio. Pouco tempo depois, não mais do que algumas horas, a nau colidiu com a muralha de gelo. Como teria sido se a mensagem tivesse sido transmitida ao capitão? Ele a levaria a sério? Haveria tempo hábil para mudanças de rota que evitassem o encontro mortal com o iceberg? Até hoje, as dúvidas continuam sem respostas, e provavelmente continuarão para sempre.

O SS Mesaba, tal qual o Titanic, também ganhou contornos lendários. Ele continuou transportando cargas por mais seis anos, até encontrar o mesmo destino do navio que tentou salvar. Em 1918, o mundo vivia a expectativa do fim da I Guerra, mas ainda assim os alemães insistiam em sua ofensiva bélica. Um desses ataques, feito por um torpedo de longo alcance, atingiu o Mesaba, que naufragaria em minutos. Todos os vinte tripulantes morreram, inclusive aqueles que enviaram a mensagem de salvamento para o Titanic e que poderiam ter virado heróis. Foi o bastante para o mundo associar a embarcação mais famosa do mundo a algum tipo de maldição. Quem cruzasse o caminho do Titanic, mesmo se tivesse a intenção de protegê-lo, estaria condenado.

Lendas à parte, o Mesaba foi descoberto graças aos recursos da nova era tecnológica. A equipe de pesquisadores britânicos que encontrou a carcaça da embarcação usou um sonar multifeixe — apelidado de “Prince Madog” —, que emite o que os especialistas chamam de ondas acústicas em leque. Para simplificar: são sensores de última geração que mapeiam o fundo do mar com precisão. “Sabíamos que havia muitos naufrágios em nosso quintal no Mar da Irlanda”, diz Michael Roberts, geocientista marítimo da Universidade de Bangor. “O que nos surpreendeu foi encontrar um navio que participou da história do Titanic.” Em apenas um ano, o sonar “Prince Madog” descobriu 273 navios ocultos no fundo do Mar da Irlanda.

Se a corrida espacial vive nova era de aventuras, agora de olho na exploração de Marte, a arqueologia marítima também passa por um ciclo inédito. O mercado potencial é gigantesco. Segundo estimativa da Unesco, há 3 milhões de naufrágios no fundo do mar. Alguns dos mais marcantes da história já começaram a ser desbravados. É o caso do veleiro Endurance, encontrado em março passado nos mares congelados da Antártica após passar 106 anos no fundo do oceano. Sua exata localização só foi possível graças à nova geração de equipamentos como drones e sensores. Tudo leva a crer que novos Endurances, Mesabas e Titanics serão, enfim, despertados de seu sono profundo.

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