Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 16 de agosto de 2026
Com a expectativa de um El Niño mais intenso neste ano, seguradoras estão revisando seus planos de contingência e se preparando para um eventual aumento de sinistros provocados por enchentes, vendavais e períodos de seca mais longos relacionados ao fenômeno climático.
A leitura é a de que o excesso de chuvas em algu afetar linhas “massificadas”, como os seguros que protegem veículos e casas, além de seguros contratados por empresas. Também preocupa o impacto no agronegócio e, consequentemente, no seguro rural.
“Hoje, a maioria das projeções aponta para um El Niño forte. Esse é o cenário com que estamos trabalhando”, diz Jarbas Medeiros, presidente da comissão de riscos patrimoniais massificados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg).
A expectativa é de maior impacto a partir de setembro, período em que podem ocorrer as chuvas torrenciais concentradas em curto espaço de tempo, além do risco de alagamentos, vendavais, ciclones e até tornados. “Ninguém consegue prever exatamente quando ou onde isso vai acontecer. E isso é determinante para o tamanho das perdas”, afirma.
“Força-tarefa”
Diante desse cenário, as seguradoras passaram a reforçar sua preparação operacional, com monitoramento diário de previsões meteorológicas e mobilização antecipada de equipes próprias. “A gente procura estar preparado para o pior”, afirma Medeiros. Além de desenhar uma “força-tarefa”, as companhias também reforçar a rede de assistência e fortalecer a estrutura para lidar com um grande volume de sinistros simultaneamente.
No país, a média anual de registros de eventos climáticos passou de 2,5 mil no período de 2015 a 2019 para cerca de 4,5 mil no período de 2020 a 2024, segundo dados compilados pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).
Esse aumento da frequência e da intensidade dos eventos levou seguradoras a remodelar seus modelos de risco e sua estrutura de atendimento aos segurados. “Houve uma evolução das companhias no que diz respeito a todo o processo. Não só na precificação, mas também na subscrição e para se organizar de forma a atender melhor os sinistros porque está muito claro para nós que essa é uma realidade que veio para ficar”, avalia Medeiros.
Aos poucos, ocorreu uma substituição, dentro do setor, de uma lógica reativa por uma estratégia de prevenção, afirma Marcio Probst, diretor de operações e sinistros do Grupo HDI. Se antes as seguradoras estruturavam suas operações depois que o desastre já havia acontecido, agora o processo começa dias antes, com monitoramento meteorológico, cruzamento de dados geográficos e planejamento operacional.
Resseguros
Além de mexer na rotina das seguradoras, o aumento dos eventos climáticos no país passou também a ser considerado na negociação dos contratos de resseguro, instrumento que permite às companhias dividir o risco com resseguradoras nacionais e internacionais. Proust, da HDI, diz que, além de considerar fatores como o número de ocorrências e quantas vezes o resseguro foi acionado, as resseguradoras estão levando em conta, no momento de renovar contratos, a capacidade das seguradoras de gerir o risco e reduzir o prejuízo.
Medeiros, da Fenseg, afirma que uma seguradora sozinha não conseguiria suportar um risco catastrófico e que, por isso, o mercado tem buscado mais proteção do resseguro. Isso, segundo ele, permitiu ampliar a oferta de coberturas como a de alagamentos. Em 2024, apenas três seguradoras comercializavam no país esse tipo de proteção. Atualmente, cerca de 80% do mercado já oferece essa cobertura, diz.
Enchente de 2024
Até agora, o maior sinistro climático ocorrido no Brasil foi provocado pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul, em 2024, mas outros eventos chamaram a atenção, como chuvas no litoral paulista em 2025 e as enchentes na Zona da Mata mineira em 2026.
No caso do Rio Grande do Sul, o valor coberto por seguro chegou a R$ 6 bilhões, uma parte pequena considerando as perdas econômicas que se aproximaram dos R$ 90 bilhões.
Estima-se que só 9% das perdas econômicas dos desastres climáticos sejam cobertas no Brasil. Em países desenvolvidos, essa proteção estaria entre 20% e 55%, segundo dados da Swiss Re de 2023.
Diante disso, os baixos índices de contratação de seguro seguem sendo um desafio. Probst ressalta que menos de 18% das residências brasileiras possuem seguro, enquanto entre as empresas esse percentual gira em torno de 20%. Embora a demanda tenha crescido desde 2024, principalmente após o evento no Sul, o avanço ainda está longe de acompanhar a maior percepção de risco. “Ainda falta maturidade do consumidor em relação ao seguro patrimonial”, diz. (As informações são do Valor Econômico)