Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 16 de agosto de 2026
Com a ameaça iminente de eventos climáticos extremos trazidos pelo El Niño, o Brasil busca reforçar a medicina de desastres. A área atua no planejamento e na resposta rápida a tragédias ambientais, a exemplo das graves enchentes registradas no Rio Grande do Sul em 2024.
O país prepara investimento bilionário com plano para expandir hospitais de campanha e equipes nos grandes centros urbanos, segundo Adriano Massuda, secretário-executivo do Ministério da Saúde. Na mesma linha, instituições privadas se mobilizam na capacitação de grupos com habilidades específicas para atuar em situações de desastres.
A discussão ganha força na saúde diante de duas possibilidades: tragédias ambientais, decorrentes de chuvas e secas, por exemplo, e o surgimento de novas epidemias, como ocorre atualmente com o surto de ebola na República Democrática do Congo.
A medicina de desastres é uma subespecialidade da emergência, voltada à atuação em ambientes geralmente desestruturados e com a demanda muito além do que o sistema local de saúde pode absorver. Guerras, acidentes aéreos e crises migratórias configuram algumas dessas situações.
Segundo Massuda, o país começou a se estruturar em 2011, com a criação da Força Nacional do SUS (Sistema Único de Saúde) em razão dos deslizamentos na região serrana do Rio de Janeiro.
Massuda afirma que a Força Nacional do SUS ganhou novas unidades nos estados neste ano, em Salvador, Porto Alegre e também no Rio de Janeiro. Outras cinco bases devem iniciar a operação em 2027: uma na região Nordeste, outra no Centro-Oeste e duas no Norte.
“O plano para aumentar a resiliência do sistema de saúde prevê aplicação de R$ 9,8 bilhões até 2035”, declarou em reportagem publicada pela Folha de S. Paulo.
As bases contam com infraestrutura e insumos para a montagem rápida de hospitais de campanha. Esse é um dos principais pilares para responder a tragédias, sobretudo porque regiões atingidas por catástrofes podem perder parte de estruturas como hospitais e unidades de atenção primária.
Hospitais de campanha
No Rio Grande do Sul, segundo a pasta, foram instalados quatro hospitais de campanha com capacidade para atender 200 mil pessoas por um período de três meses.
Até 2022, a estrutura funcionava por demanda, isto é, não tinha uma operação própria. Atualmente, conta com 82 profissionais na gestão, atrelada ao Ministério da Saúde, e 70 mil profissionais voluntários, distribuídos em todas as unidades da federação —3.500 deles foram capacitados para atuação em tragédia. A equipe tem ainda 70 profissionais com qualificação aeromédica.
Segundo a pasta, com isso a ideia é montar um hospital em qualquer lugar do país em até 12 horas após uma tragédia.
Histórico
A medicina de desastres ganhou força a partir dos anos 1980. O trabalho não se resume à atuação frente a episódios trágicos, e os profissionais dessa área são responsáveis por prever qualquer possível situação catastrófica, segundo Felipe Piza, diretor de responsabilidade social e filantropia do Einstein Hospital Israelita.
A unidade possui um grupo de atuação em tragédias que participou de 20 missões desde 2008, entre as quais o terremoto no Haiti (2010), o incêndio da Boate Kiss (2013) e o rompimento da barragem de Brumadinho (2019).
“Não se pode mandar qualquer profissional de saúde para uma catástrofe porque é uma atuação particular. Primeiro porque não há o recurso hospitalar ou clínico com o qual o médico está acostumado. Depois, o profissional será testado em um ambiente de estresse contínuo, de adoecimento mental, de traumas dos pacientes. Exige uma capacitação prévia e posterior, continuada, mesmo após a missão”, afirma Piza.
Há também situações que colocam profissionais e pacientes sob risco biológico ou decorrentes de conflitos.
“Isso exige do profissional uma criatividade para fazer o possível com o que tem, sem abandonar as evidências científicas, sem abandonar a gestão de risco”, afirma Cláudia Laselva, diretora de serviços hospitalares, apoio e práticas assistenciais do Einstein.
Pós-eventos
Uma análise da Folha a partir de dados do Datasus mostrou que as consultas e atendimentos relacionados a transtornos mentais em hospitais gaúchos cresceram 11,7% na média mensal nos dez meses posteriores à catástrofe. Foram 64,2 mil atendimentos públicos, o maior pico da década. Pacientes relataram crises de pânico e síndrome de estresse pós-traumático.
Para esses episódios, as equipes precisam manter os atendimentos até meses depois de restabelecido o sistema local, uma vez que a demanda não cabe nas estruturas disponíveis.
Segundo o Ministério da Saúde, o número de missões da Força Nacional do SUS cresceu nos últimos anos —foram 14 em 2023; 19 em 2024; e 45 no ano passado. (As informações são da Folha de S. Paulo)