Quinta-feira, 26 de Maio de 2022

Home em foco Covid longa: cientistas podem ajudar a entender se paciente é propenso a sofrer sintomas da doença durante meses e encontrar maneiras de prevenir e tratar os casos

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Um dos muitos mistérios sobre a covid longa é: quem está mais propenso a desenvolvê-la? Algumas pessoas são mais propensas do que outras a sofrer os sintomas físicos, neurológicos ou cognitivos que podem surgir ou permanecer meses após a eliminação de suas infecções por coronavírus?

Agora, uma equipe de pesquisadores que acompanhou mais de 200 pacientes por dois a três meses após o diagnóstico de covid relatou ter identificado fatores biológicos que podem ajudar a prever se uma pessoa desenvolverá covid longa.

O estudo, publicado pela revista Cell, encontrou quatro fatores que podem ser identificados no início da infecção por coronavírus e que parecem se correlacionar com o aumento do risco de sintomas duradouros semanas depois.

Os pesquisadores disseram que descobriram que há uma associação entre esses fatores e a covid longa (que atende pelo nome médico de sequelas agudas pós-covid-19, ou PASC, na sigla em inglês), independentemente de a infecção inicial ser grave ou leve. Eles disseram que as descobertas podem sugerir maneiras de prevenir ou tratar alguns casos de covid longa, incluindo a possibilidade de administrar medicamentos antivirais às pessoas logo após o diagnóstico de infecção.

“É a primeira tentativa realmente sólida de criar alguns mecanismos biológicos para enfrentar a covid longa”, disse o dr. Steven Deeks, professor de medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco, que não esteve envolvido no estudo. Ele e outros especialistas, juntamente com os autores do estudo, alertaram que as descobertas são exploratórias e precisariam ser verificadas por mais pesquisas.

Ainda assim, Deeks disse: “Eles identificaram esses quatro fatores principais. Cada um é biologicamente plausível, consistente com as teorias que outras pessoas estão formulando e, mais importante, cada um é acionável. Se esses caminhos forem confirmados, nós, como clínicos, poderemos realmente projetar intervenções para ajudar as pessoas. A mensagem é esta”.

Um dos quatro fatores identificados pelos pesquisadores é o nível de RNA de coronavírus no sangue no início da infecção, um indicador de carga viral. Outro é a presença de certos autoanticorpos – anticorpos que atacam erroneamente os tecidos do corpo, como fazem em condições como lúpus e artrite reumatoide. Um terceiro fator é a reativação do vírus Epstein-Barr, um vírus que infecta a maioria das pessoas, geralmente quando jovens, e depois geralmente fica inativo.

O último fator é ter diabetes tipo 2, embora os pesquisadores e outros especialistas tenham dito que, em estudos envolvendo um número maior de pacientes, pode ser que o diabetes seja apenas uma das várias condições médicas que aumentam o risco de covid longa.

“Acho que esta pesquisa enfatiza a importância de fazer medições logo no início do curso da doença para descobrir como tratar os pacientes, mesmo que ainda não saibamos como usar todas essas informações”, disse Jim Heath, diretor investigador do estudo e presidente do Instituto de Biologia de Sistemas, uma organização de pesquisa biomédica sem fins lucrativos em Seattle.

“Quando você consegue mensurar algo, então você pode começar a fazer algo a respeito”, disse Heath, acrescentando: “Fizemos essa análise porque sabemos que os pacientes procuram os médicos dizendo que estão cansados o tempo todo, e os médico só dizem para eles dormirem mais. Não é uma coisa muito útil. Então, queríamos realmente ter uma maneira de quantificar e dizer que realmente há de errado com esses pacientes”.

O complexo estudo teve vários componentes e envolveu dezenas de pesquisadores em várias universidades e centros, incluindo o Instituto de Biologia de Sistemas, a Universidade de Washington e o Swedish Medical Center de Seattle, onde o principal autor do estudo, Dr. Jason Goldman, é especialista em doenças infecciosas.

O grupo principal de pacientes abarcou 209 pessoas, com idades entre 18 e 89 anos, que foram infectadas com o coronavírus durante 2020 ou início de 2021 e atendidas no Swedish Medical Center ou em uma clínica afiliada. Muitos foram hospitalizados por suas infecções iniciais, mas alguns ficaram apenas nos atendimentos ambulatoriais. Os pesquisadores analisaram sangue e amostras nasais quando os pacientes foram diagnosticados, durante a fase aguda de suas infecções e dois a três meses depois.

Eles pesquisaram os pacientes em cerca de 20 sintomas associados à covid longa, como fadiga, confusão mental e falta de ar, e corroboraram esses relatórios com registros eletrônicos de saúde, disse Heath.

Ele disse que 37% dos pacientes relataram três ou mais sintomas de covid longa dois ou três meses após a infecção. Outros 24% relataram um ou dois sintomas e 39% não relataram sintomas. Dos pacientes que relataram três ou mais sintomas, 95% tinham um ou mais dos quatro fatores biológicos identificados no estudo quando foram diagnosticados com covid-19, disse Heath.

O fator mais influente parece ser os autoanticorpos, que foram associados a dois terços dos casos de covid longa, disse Heath. Cada um dos outros três fatores apareceram em cerca de um terço dos casos, disse ele, e houve sobreposição considerável, com vários fatores identificados em alguns pacientes.

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