Domingo, 01 de Novembro de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 31 de outubro de 2026
O Brasil abriga cerca de 140 espécies de plantas carnívoras e ocupa o segundo lugar no ranking mundial de diversidade desses vegetais, atrás apenas da Austrália. Distribuídas em sete gêneros, essas plantas desenvolveram diferentes estratégias para capturar presas e obter nutrientes.
Com folhas cobertas por substâncias pegajosas, armadilhas subterrâneas e até estruturas que funcionam como pequenos reservatórios de água, algumas dessas espécies são cultivadas em casa, muitas vezes sem que seus donos saibam que são carnívoras e de origem brasileira.
Segundo dados de 2023 da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o território nacional abriga cerca de 140 espécies de plantas carnívoras, distribuídas em sete gêneros.
Em meio a tanta diversidade, o Terra da Gente reuniu os sete gêneros encontrados no país e explica como cada um deles captura suas presas e em quais ambientes vive.
Para entender o que faz uma planta ser considerada carnívora, a reportagem conversou com o botânico Paulo Gonella, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), que explicou o funcionamento dessas estratégias e as particularidades de cada grupo.
Uma mosca pousa sobre uma folha e fica presa em uma substância pegajosa. Em outro ambiente, um pequeno organismo microscópico é sugado para dentro de uma bolsa submersa. Essas duas situações fazem parte da rotina de plantas carnívoras.
Para receber essa classificação, uma planta precisa apresentar um conjunto de adaptações que permita atrair, capturar e digerir organismos. Esse processo é conhecido como síndrome da carnivoria vegetal. “Esse conjunto de adaptações permite que a planta consiga atrair, capturar e digerir presas, que podem variar desde insetos até microrganismos como protozoários”, explica Gonella.
Depois da captura, a digestão ocorre por meio de enzimas produzidas pela própria planta ou pela ação de uma microbiota associada, formada por fungos e bactérias.
A planta absorve os nutrientes liberados nesse processo e os utiliza em seu desenvolvimento.
O principal interesse desses vegetais está no nitrogênio e no fósforo, elementos essenciais para a produção de proteínas. Por isso, as plantas carnívoras são mais comuns em locais com solos pobres nesses nutrientes e precisam obtê-los de outras maneiras, como pela captura de outros seres vivos.
“Vale ressaltar que todas as plantas carnívoras realizam fotossíntese para produzir sua própria energia. A captura de presas serve exclusivamente para complementar os nutrientes minerais escassos no solo”, explica o botânico.
Conheça alguns gêneros de plantas carnívoras encontrados no Brasil, apresentados pelo especialista Paulo Gonella.
Drosera
Conhecidas popularmente como orvalhinhas, as plantas do gênero Drosera chamam a atenção pelas pequenas gotas que cobrem suas folhas. À primeira vista, parecem estar molhadas pelo orvalho da manhã, mas a substância tem uma função importante na captura de presas.
As gotas são formadas por uma substância espessa e pegajosa, chamada mucilagem, produzida por pequenos tentáculos presentes nas folhas. Quando um inseto pousa sobre a superfície, gruda na substância e fica preso.
A planta utiliza essas estruturas para atrair e capturar principalmente pequenos insetos voadores. Depois, libera enzimas que ajudam a digerir as presas e permitem a absorção dos nutrientes.
O gênero está entre os maiores grupos de plantas carnívoras do mundo e possui representantes em diferentes regiões brasileiras.
Genlisea
As espécies do gênero Genlisea possuem uma estratégia de captura que acontece longe dos olhos de quem observa a planta. Suas armadilhas ficam escondidas no solo ou submersas na água e são especializadas na captura de organismos microscópicos.
As estruturas apresentam formato semelhante ao de um Y invertido. Nas extremidades, pequenas aberturas e pelos internos voltados para dentro conduzem os organismos até uma câmara chamada ampola. Uma vez dentro dessa estrutura, os pequenos organismos ficam acumulados e são digeridos pela planta. Entre as principais presas estão os protozoários, seres microscópicos que vivem na água e no solo.
O mecanismo faz de Genlisea um gênero particular entre as plantas carnívoras brasileiras, já que suas armadilhas capturam organismos que passam despercebidos a olho nu.
Gênero Utricularia
Com mais de 70 espécies registradas no Brasil, Utricularia é o gênero mais diverso e comum de plantas carnívoras encontrado no país. Suas armadilhas são pequenas bolsas chamadas utrículos, que podem ficar submersas na água ou escondidas no solo.
Elas funcionam por meio de um mecanismo de sucção. Quando uma presa encosta nos pelos sensoriais da estrutura, uma pequena abertura é acionada e a água entra rapidamente, levando o organismo junto.
Todo o movimento acontece em uma fração de segundo. Segundo o botânico, a velocidade impressionante faz desse mecanismo um dos movimentos de captura mais rápidos conhecidos pela ciência entre os vegetais.
As espécies podem capturar pequenos invertebrados e microrganismos, que são digeridos e fornecem nutrientes importantes para o desenvolvimento da planta.
Heliamphora
Nas montanhas do norte da Amazônia, algumas plantas desenvolveram folhas que lembram pequenos jarros. É o caso de Heliamphora, gênero restrito aos tepuis dos estados do Amazonas e de Roraima.
Suas folhas crescem na posição vertical e formam estruturas que acumulam água da chuva. Pequenos animais podem cair nesses reservatórios e ficar presos no interior dos jarros.
A presença de tricomas, pequenos pelos na parte interna das folhas, dificulta a saída das presas. Os organismos ficam acumulados na água e são decompostos, permitindo que a planta aproveite os nutrientes liberados. (Com informações do portal g1)