Domingo, 07 de Junho de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 7 de junho de 2026
Mais de 1/3 dos professores avaliados pelo Ministério da Educação (MEC) não tem condições de dar aulas, segundo os resultados da Prova Nacional Docente, divulgados recentemente. A primeira edição da prova, conhecida como Enem dos Professores, teve a adesão de 1.508 municípios e 22 redes estaduais de ensino. O exame mostrou que a maior falha na formação docente se dá em Matemática, área em que mais da metade dos avaliados não alcançou o nível básico estabelecido pelo governo federal. Entre 760 mil participantes, 266 mil ficaram abaixo do patamar mínimo de proficiência. Uma tragédia, a ponto de o diretor-executivo da organização Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho, assim resumir o quadro: a formação inicial dos professores brasileiros está na UTI.
Antes fosse hipérbole retórica. Um país onde tantos profissionais responsáveis por alfabetizar, ensinar Matemática e formar leitores não dominam o conteúdo essencial de sua própria atividade compromete o futuro de gerações. O problema não começa no professor que foi mal na prova, e sim nas licenciaturas frágeis, nos cursos de baixa qualidade, na expansão desordenada da educação a distância (EAD) e na tolerância oficial com instituições que diplomam sem formar.
Que a cobrança do domínio de conteúdo de quem vai ensinar não soe como elitismo ou desprezo pela realidade socioeconômica dos nossos professores. Trata-se do mínimo. Nenhuma política educacional séria pode se sustentar sobre a fantasia de que basta boa vontade para ensinar. Professor precisa conhecer o que ensina, saber como ensinar e dispor de condições para exercer sua profissão. Valorizar o professor é levá-lo a sério. Isso significa exigir formação rigorosa, selecionar melhor, remunerar adequadamente e criar carreiras capazes de atrair bons profissionais.
Durante décadas, o Brasil preferiu fugir dessa verdade elementar. Multiplicou planos, metas e conferências, mas conviveu com vícios de origem que levam o País a formar mal justamente aqueles de quem depende a melhora da escola pública. O resultado está nas salas de aula, no desempenho insuficiente dos estudantes, na desigualdade que se perpetua e, agora, nos números da Prova Nacional Docente. Assim se fecha um ciclo perverso: a escola básica deficiente alimenta licenciaturas frágeis.
Não há como enfrentar esse quadro sem encarar parte relevante dos cursos de formação. Por anos, o Brasil permitiu que licenciaturas proliferassem com baixa exigência acadêmica, pouca integração com a escola real e escasso compromisso com o domínio dos conteúdos. A formação pedagógica, quando existe, frequentemente se perde em generalidades. Em paralelo, a formação específica, em muitos casos, não assegura o conhecimento que será cobrado em sala de aula. A prática supervisionada é muitas vezes tratada como formalidade burocrática e, na tradição corporativista do País, como conspiração de gestores públicos para perseguir professores.
A expansão da educação a distância agravou tamanha distorção. Seu problema é fazer da formação docente um produto barato, escalável e descolado da experiência concreta da escola. Ensinar exige relação, observação, acompanhamento e capacidade de lidar com alunos reais, não só com plataformas e avaliações remotas. A consequência inevitável é o prejuízo imposto a milhões de crianças e jovens. Felizmente, o MEC começou a construir diques de contenção à farra da EAD.
A Prova Nacional Docente é avanço, desde que não seja tratada como solução isolada. Avaliar é necessário, por óbvio, mas o exame, por si, não reformará a formação docente. Será inútil se seus resultados forem recebidos com resignação ou relativização corporativa. A prova deve orientar políticas concretas: reestruturar cursos ruins, elevar a exigência das licenciaturas, aproximar universidades e escolas, fortalecer estágios e impedir contratações sem aferição mínima de competência.
A tragédia revelada pelo Enem dos Professores deveria produzir um sentimento de vergonha nacional. Não a vergonha que humilha o docente individualmente, mas a vergonha republicana que obriga o Estado, as universidades, as redes de ensino e a sociedade a reagir. Se a formação docente está na UTI, convém perguntar se o Brasil terá coragem de tratá-la como emergência nacional. Com informações do portal Estadão.