Segunda-feira, 03 de Agosto de 2026
Por Redação Rádio Pampa | 2 de agosto de 2026
O governo Donald Trump começou a prender cidadãos estrangeiros com vistos americanos vencidos enquanto eles viajam a partir de aeroportos, incluindo cônjuges de cidadãos americanos, apontam documentos obtidos pelo New York Times e entrevistas com advogados de imigração – revelando uma tática que abre um vasto novo contingente de pessoas passíveis de deportação. Agentes de imigração à paisana têm capturado seus alvos em balcões de check-in e portões de desembarque, com operações em pelo menos 15 aeroportos nas últimas semanas. Algumas das prisões ocorreram discretamente, enquanto outras aconteceram sob os olhares – e as câmeras – de passageiros indignados que filmaram os episódios.
As prisões recentes parecem revelar a ampliação de um acordo entre a Administração de Segurança nos Transportes (TSA) e o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE). O Times noticiou em dezembro que agentes do ICE estavam prendendo em aeroportos, com a ajuda de informações fornecidas pelas companhias aéreas à TSA, pessoas com ordens de deportação. Agora, por meio da análise de documentos do Departamento de Segurança Interna (DHS) e de entrevistas com advogados de mais de 25 pessoas detidas recentemente, o Times apurou que o programa aparentemente passou a incluir pessoas com vistos vencidos – um grupo muito maior.
Centenas de milhares de imigrantes e visitantes ultrapassam o prazo de seus vistos todos os anos. Muitos com vistos vencidos ocupam uma zona jurídica cinzenta, uma vez que aguardam prorrogações de visto ou green cards e obtiveram autorizações de trabalho. Essas pessoas não eram consideradas prioritárias para deportação no passado, a menos que tivessem cometido crimes, e raramente eram detidas enquanto esperavam prorrogações de visto ou residência permanente. Mas isso mudou sob o presidente Trump, cujo governo lançou uma campanha de deportação em massa, que considera ilegal toda permanência além do prazo do visto.
“Este governo está trabalhando com afinco para garantir que estrangeiros presentes ilegalmente em nosso país não possam mais voar, a não ser para fora do país, para autodeportação”, afirmou um porta-voz do Departamento de Segurança Interna em nota. O órgão não confirmou a ampliação do programa.
O departamento, que supervisiona o ICE, não divulgou quantas pessoas foram detidas em aeroportos por permanência irregular sob a nova iniciativa. As prisões ocorrem em um período no qual a Casa Branca vem pressionando o ICE por mais detenções em todo o país, e o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, prometeu “aumentar a pressão nas ruas”. Nesse esforço, o governo estabeleceu uma meta de 2 mil prisões de imigrantes por dia, cerca do dobro do ritmo registrado no início do ano.
Histórias por trás dos números
Entrevistas com mais de uma dezena de advogados de imigração, organizações de defesa de direitos e um funcionário de companhia aérea revelam um perfil variado de alvos: um engenheiro à espera de uma prorrogação de visto de trabalho, vários recém-casados com cidadãos americanos e uma ex-au pair.
Vídeos de encontros entre viajantes e agentes do ICE inundaram as redes sociais. Em uma gravação amplamente compartilhada, Chantal Morales Rojas, uma equatoriana de 27 anos, foi detida por agentes à paisana enquanto embarcava em um voo da Southwest Airlines de Denver para Oakland, na Califórnia, no dia 20 de julho. Ela havia passado o fim de semana com a família para a qual trabalhara como au pair, segundo os familiares.
Quando Chantal passou o cartão de embarque, um alarme soou e a funcionária do portão pediu que ela aguardasse. Momentos depois, dois agentes à paisana a interceptaram na ponte de embarque.
“Eles disseram que seriam respeitosos, que seriam educados”, contou Alicia Dantzker, amiga da família que estava no mesmo voo e filmou parte do episódio. O vídeo mostra os homens cercando a jovem e, em seguida, conduzindo-a por uma porta lateral e escada abaixo até a pista, enquanto Alicia grita por socorro.
Entre os detidos também estava uma mulher ugandense em cadeira de rodas, portadora de anemia falciforme e com um pedido de asilo ativo, segundo sua advogada.
Em outro caso, o ICE tentou prender um cidadão australiano que havia ultrapassado o prazo de seu visto no aeroporto de Las Vegas, segundo o Departamento de Segurança Interna. A cena foi gravada por um popular, cujo vídeo do episódio ganhou grande repercussão. Os agentes o liberaram “para reduzir a tensão e por segurança dos agentes”, mas o ICE acabou detendo-o um dia depois, quando ele tentou embarcar em um voo em Los Angeles, informou o departamento em nota.
“Em 38 anos exercendo a advocacia de imigração, eu nunca tinha visto algo assim”, disse Charles Kuck, que atua em Atlanta e representa um engenheiro indiano detido enquanto aguardava a prorrogação de sua autorização de trabalho. “E sei que isso está acontecendo com muita gente.”
Recomendação de cautela
A advogada de imigração e vice-presidente da seção de Chicago da Associação Americana de Advogados de Imigração (AILA), Shannon Shepherd, disse que ela e outros colegas estavam revisando as orientações que davam havia anos sobre viagens aéreas domésticas.
“Antes, eu dizia: ‘Enquanto você tiver um documento de identidade, pode viajar dentro do país’”, afirmou Shepherd. “Agora, mudei de ideia e digo: ‘Se você estiver no processo de mudança de status, evite qualquer viagem’”.
A colaboração entre a TSA e o ICE começou em maio de 2025, quando a agência de segurança aeroportuária passou a compartilhar informações com o órgão de imigração para fins de aplicação da lei, segundo um documento obtido por meio da Lei de Liberdade de Informação pelo grupo de transparência governamental American Oversight, repassado ao Times.